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Learning Design e a TV Digital Brasileira

Por Jaime Balbino

Data de Publicação: 09 de Fevereiro de 2009

No princípio era o XML...

Há muito tempo li um artigo em uma revista brasileira que perguntava algo como "Seria o XML o Santo Graal da computação"?. Infelizmente não me lembro do nome da publicação, mas era um artigo sobre os paradigmas desvelados pela linguagem semântica XML, que se tornara padrão W3C pouco tempo antes.

A questão era que havia na época uma grande agitação na área em torno dos usos possíveis para a nova linguagem, sua interoperabilidade e sua capacidade de tratar em contextos diferentes design e conteúdo (ao contrário do HTML... que nunca foi uma linguagem de programação digna, isto é, com os requisitos mínimos de lógica e coerência). Algumas coisas já funcionavam e era difícil pensar em qualquer novo software sem algum tipo de implementação XML, mesmo que oculta do usuário final.

A pergunta do título do artigo, se não me engano, se referia principalmente a capacidade de gerar modelos semânticos compatíveis com qualquer programa e linguagem existente. Era uma idéia simples e ao mesmo tempo inovadora, bastava descrever as regras necessárias dentro do "texto" XML e qualquer interpretador seria capaz de resgatar/trabalhar as informações contidas. Seria, então, este o Santo Graal. A capacidade de unir sistemas díspares por meio de uma estrutura de dados simples de ser criada e mantida, legível por humanos e máquinas por mais complexo que fosse a informação trabalhada ou sua estrutura.

Um formato padrão por excelência

Já se passaram tantos anos desde que aquele artigo foi escrito e é interessante constatar que o XML e seus derivativos conseguiram se firmar como principal ferramenta de interoperabilidade. Por certo a previsão sobre o Cálice Sagrado em seu sentido de comunhão se cumpriu.

Em educação, o consórcio IEEE definiu seu padrão para objetos de aprendizagem também como um arquivo XML; assim como a compilação de padrões SCORM o adotou para representar sua complexa estrutura. Indo além, o consórcio IMS define todos os seus padrões educacionais, desde o armazenamento do perfil e progresso do aluno (IMS-LIP), passando pelo conteúdo (IMS-CP) e avaliação (IMS-QTI) e chegando ao seu recente modelo para planejamento de cenários pedagógicos (IMS-LD) como estruturas XML independentes. Com isso pode-se implementar livremente tais padrões combinando-os com outros, se necessário, como o SCORM.

Na prática isso só interessaria ao desenvolvedor de software, porém qualquer um destes padrões citados são também um conjunto de técnicas e práticas que vai muito além da aplicação de um ou outro formato. No caso específico do IMS-LD (vulgo /learning design/), que é o que nos interessa neste artigo, o padrão resume uma maneira para construir e ofertar cursos, organizando o conteúdo em atividades muito mais complexas do que as possíveis até então (como no SCORM, por exemplo). Por "atividades complexas" compreenda-se ambientes colaborativos onde os alunos são divididos em grupos para desempenhar tarefas visando objetivos claros; seqüências longas e não-lineares de atividades obrigatórias e optativas; incrementar o /papel/ do aluno como, por exemplo, como coordenador de um grupo ou atividade; definição mais clara e detalhada dos objetivos de aprendizagem e do caminho necessário para consegui-los; etc...

O arquivo XML guarda a representação do modelo de ensino construído com o instrumental oferecido pelo learning design. Ele não é "o" modelo mas junto com outras informações é fundamental para garantir um trabalho perene. As ferramentas já existentes para trabalhar os cenários pedagógicos criados com learning design e outros padrões correlatos podem manipular de maneira transparente os arquivos XML, recuperando as informações dos cursos para edição ou "executando" as aulas para os alunos/professores/tutores.

Por outro lado, o padrão de TV Digital adotado pelo Brasil também é baseado em muitos padrões abertos e utiliza o XML e sistemas baseados nele para suportar praticamente todas as suas funções internas. Mais do que se apoiar em padrões internacionais, o Sistema Brasileiro de TV Digital tem também ajudado a "escrever" sua evolução, através do intercâmbio realizado com órgãos como ISO e W3C.

Uma união possível

A TV Digital brasileira é uma nova mídia potencialmente inovadora por prever funções até agora relevadas em outras iniciativas semelhantes no mundo, como a interatividade. Um programa ao vivo poderia /dialogar/ com seus telespectadores (esse termo ainda se aplica?). Este também poderia escolher um determinado ângulo de câmera ou seqüência de cenas que estaria sendo transmitidos simultaneamente num programa. Pedagogicamente, isto permitiria a construção de ambientes educacionais interessantes, mais complexos que a programação educativa da TV que conhecemos.

O ambiente de autoria do Ginga, desenvolvido na PUC-RJ e UFPB, permite a roteirização e montagem de programas com este nível de interatividade na TV Digital e até a criação de aplicativos. Juntando-se este programa a um receptor compatível com os requisitos para interação (mais completo que os atualmente disponíveis no mercado) e a um /canal de retorno/ (telefone, internet ou rádio) para "fechar o círculo dialógico" através da emissora, temos um vasto ambiente informativo com interação. Isto é muito diferente de qualquer outra ferramenta conhecida, algo que não é nem televisão e nem internet.

O Ginga é um ambiente de autoria genérico que pode se utilizar da estrutura de planejamento de cenários pedagógicos oferecida pelo learning design para melhor organizar conteúdos educacionais. A partir daí seria possível criar ambientes pedagogicamente sustentados e tecnologicamente perenes envolvendo tanto os recursos da nova TV como mesclá-los com aqueles disponíveis em outros ambientes e tecnologias.

Como funcionaria na prática?

O Coppercore é uma aplicação em Java desenvolvida pela Universidade Aberta da Holanda (criadora do learning design). Foi uma das primeiras aplicações desenvolvidas para o padrão IMS-LD e é o principal programa/código por traz de muitas soluções baseadas no padrão. Ele é um servidor de cursos que permite, de uma maneira um tanto "rústica", criar e manipular cursos e estratégias de aprendizagem. Também é possível "executar" e gerenciar cursos arquivados dentro do sistema; gerar arquivo do curso para "execução" em outro AVA, como o dotLRN e, limitadamente, no Moodle; ou ainda mesclar a execução entre o servidor Coppercore, um AVA ou outro ambiente.

Uma característica nova em sua última versão é a possibilidade de se criar widgets, pequenos códigos de programação mudulares e independentes executados de dentro do servidor Coppercore e que exibem alguma atividade numa janela suspensa dentro do navegador web.

Os widgets são códigos muitos simples que se comunicam com o Coppercore através de XML. As versões mais recentes dos editores para IMS-LD, como o ReCourse, já incorporam chamadas diretas para esses widgets. Por exemplo, ao invés de agendar um bate-papo no Moodle, o curso pode solicitar a execução do widget de bate-papo do servidor Coppercore da universidade.

Da mesma maneira, um widget pode ser um script para execução no Ginga, inicando um conjunto de recursos numa programação de TV Digital. O widget repassaria ao Coppercore as informações sobre o programa e as interações realizadas pelos alunos, professores e tutores a título de acompanhamento e avaliação.

Ao definir o "widget TV digital" o autor do curso teria que informar os dados necessários ao Ginga e também poderia entrar no editor do Ginga para criar o programa televisivo. Esta integração IMS-LD e TV Digital poderia ser aplicada em uma aprendizagem totalmente baseada num programa de TV ou mesclada com outros ambientes de ensino, recursos e até encontros presenciais, já que o IMS-LD não se limita a desenhar apenas cenários virtuais.

Este é um exemplo do que é possível fazer, aproveitando-se o melhor destas duas tecnologias. Neste texto evitei entrar em detalhes sobre cada tecnologia para enfatizar os conceitos envolvidos, mas os links abaixo ajudarão quem estiver interessado em compreender melhor as siglas e tecnologias citadas.

Links interessantes

  • Que tal a Wikipedia para começar?

  • Sobre os padrões IMS veja este outro artigo e o site da IMS (Innovation Adoption Learning)

  • Saiba mais sobre o Ginga e a pesquisa brasileira em TV Digital

  • Saiba sobre Coppercore, seus widgets e o ReCourse

  • Sobre o canal de retorno e a TV Digital Brasileira veja este artigo

  • Leia também "A escola de Maria" para uma visão de uso da TV Digital na formação continuada

  • Visite o site da IEEE (Institute of Eletrical and Eletronics Engineers)

  • Saiba mais sobre o SCORM e Learning Design

  • Leia também este artigo da revista Renote da UFRGS.

Sobre os autores

Jaime Balbino Gonçalves

Jaime Balbino Gonçalves da Silva é Learning Designer e consultor em automação, sistemas colaborativos de ensino e avaliação em EAD. Pedagogo e Técnico em Eletrônica. Trabalha na ProfSAT - TV Educativa via Satélite. Reside em Campinas, São Paulo.

jaimebalb (em) gmail (ponto) com

Marcos Silva Vieira

Professor desde 1986. Pedagogo, criou projetos de laboratórios de informática nas escolas. Coordena grupos de trabalho em educação inclusiva e uso de novas tecnologias. Faz parte de comunidades Linux voltadas a educação como Linux Educacional, Pandorga GNU/Linux dando apoio pedagógico. Palestrante e ministrante de cursos de formação em software livre educacional desde 2009. Participante e palestrante de eventos como Latinoware (foz do iguaçu), FISL (Porto Alegre), Freedom Day (novo hamburgo), Congresso Alagoano de Tecnologia de Informação - COALTI (edições em Alagoas e Pernambuco). Entusiasta de distribuições linux desde 2002.


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