Wikis: é preciso aprender a ler
Por Rafael Evangelista
Data de Publicação: 24 de Fevereiro de 2007
Processo de trabalho da Wikipédia precisa, sim, de ajustes. Mas, primeiro, é preciso entender corretamente as virtudes dos wikis e a dinâmica da web
Preparava-me para escrever este texto, a respeito da matéria da revista Carta Capital intitulada Referência fast-food, quando suspeitei já ter lido algo sobre o tema, aqui mesmo na Dicas-l. Era verdade, refiro-me aos artigos Num mundo wiki, uma escola idem, partes I e II, de Jaime Balbino. Faço dele as minhas palavras, mas quero repetir algumas aqui e acrescentar outras, à luz do que encontrei, na própria Wikipédia em português, sobre o artigo da Carta Capital. Recomendo vivamente, antes, o artigo de Balbino.
A referida reportagem é uma dupla crítica ao conceito da Wikipédia e ao uso que vem sendo feito da enciclopédia virtual por estudantes. Critica-se o fato de que todos podem editar os verbetes, dizendo que isso causaria uma baixa qualidade do conteúdo, e alude-se a outros projetos como a falecida Nupedia - que teria sido aniquilada por uma suposta sanha democrática da Free Software Foundation - e o Citizendium, que daria mais peso à contribuição de acadêmicos. Os alunos, por sua vez, estariam utilizando o conteúdo precário da Wikipédia para fazerem trabalhos corta-e-cola, sem terem muito trabalho investigativo. As fontes usadas pelo jornalista para fazer tal afirmação sobre os estudantes seriam algumas comunidades do Orkut (irônico, não?).
É preciso concordar que parte das críticas feitas procedem, embora a solução oferecida - incorporar doutos acadêmicos - seja questionável. A Wikipédia baseia-se na idéia semelhante à do software livre, de que muitos olhos podem fazer um código melhor ou, no caso, verbetes melhores. Uma olhada na Wikipédia em português mostra que, no caso de uma enciclopédia, isso nem sempre é verdade. Tópicos sensíveis são alvo de uma polêmica constante, principalmente política, em que ideologias diferentes disputam por versões diferentes da história. O senso-comum nem sempre é algo válido ou alcançável para um verbete de enciclopédia. Sujeitos diferentes, com histórias diferentes, podem se digladiar infinita e apaixonadamente sobre tópicos como a Segunda Guerra Mundial, Ditaduras ou o Golpe Militar de 1964.
Porém, a questão é que wikis oferecem muito mais, a aqueles que os sabem ler, do que qualquer página estática da web ou folha de papel tradicional. Wikis são páginas com história, páginas que requerem, muitas vezes, uma leitura transversal. O texto, construído coletivamente, está aberto não somente no sentido de que pode ser editado por qualquer um, mas é visível em sua estrutura, em suas alterações sucessivas. E as modificações, no caso da Wikipédia, às vezes são feitas por sujeitos virtuais que se identificam. Pode-se observar que modificações foram feitas por esses sujeitos e em quais tópicos. Como diz Balbino:
Não se pode ler um verbete da Wikipedia sem participar. Isto torna a leitura pobre e sem sentido. O conhecimento lá não é só uma matrix hipertextual que parte da interpretação individual para atingir o coletivo, como diria Pierre Levy. O hipertexto e seus links são apenas parte das possibilidades. Num texto dinamicamente escrito e reescrito, por autores conscientes do seu poder de influir na coletividade, o que temos é o surgimento também de camadas, dobras, platôs, múltiplos, histórias (num sentido mais deleuziano). Para se chegar a uma conclusão condizente com os objetivos de um wiki, deve-se não apenas seguir os links, mas acompanhar e interpretar a história, os diversos momentos do texto que lá está. Isto é, não temos quase-conceitos ou pseudo-conceitos, criados individual e coletivamente, que juntos formam um conceito ou uma idéia. O que temos em cada verbete é um conceito pleno, que representa uma idéia na sua plenitude, desde que nos deixemos desvelá-lo. Vigotsky fala desta necessidade de abstrair e refletir sobre o conhecimento para se conceituar de forma consistente o universo.
Por dentro da caixa-preta
Mas não é assim que o crítico da Carta Capital vê a Wikipédia. Ele usa palavras duras e uma analogia médica rebuscada. Para ele, todo o processo trata-se de uma metástase de pseudo-informação medíocre e disforme. Câncer em crescimento ou não, uma olhada na Wikipédia dá um colorido a mais à matéria assinada pelo jornalista Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa.
O sistema da Wikipédia permite que se pesquise por palavras-chave não somente nos tópicos, mas também nas discussões que acontecem entre os usuários que se identificam. Uma busca por carta capital mostra que o usuário OS2Warp acredita que o usuário Mlrm_lmbassman foi a fonte principal do texto de Carta Capital. A evidência seria uma troca de mensagens entre o jornalista Luiz Monteiro Coelho da Costa (em tese o dono do perfil) e o professor Luiz Prestes. De fato, o dono do perfil Luiz Prestes fez críticas à Wikipedia em sua página de mensagens abertas (scrapbook) e o dono do perfil Antonio Luiz M. C. da Costa (que é membro da comunidade Super Liga dos Moderadores do Orkut) se diz jornalista de Carta Capital à procura de fontes que critiquem a Wikipédia.
Na Internet, é preciso ter cuidado com o que se afirma e com o que se toma por evidência. Nada garante que os perfis mencionados acima sejam realmente das pessoas citadas. Infelizmente, como o Orkut não é um wiki, até mesmo a troca de mensagens citada pode desaparecer. Na dúvida, OS2Warp fez uma cópia e colocou na páginas de discussões da Wikipédia. Quem olhar a página de Mlrm_Imbassam vai ver que ele se considera um perseguido pelos administradores da Wikipédia, que se registrou várias vezes para fugir dessa perseguição e que procura editar verbetes como Cuba, Embargo a Cuba e Economia de Cuba. Luiz Prestes, no Orkut, também se mostra interessado em Cuba, é participante de comunidades sobre o país e sobre socialismo em geral e escreveu, no dia 17, na página de mensagens de outro usuário do Orkut, que já está atingindo a mídia para combater os administradores mafiosos, citando a matéria de Carta Capital. Já OS2Warp gosta de editar páginas sobre bases de lançamento de foguetes e estações espaciais.
Críticas válidas
Do mesmo modo como os softwares livres, a Wikipédia não oferece garantia sobre seu produto. Está lá, no aviso geral: nenhum dos autores, contribuidores, patrocinadores, administradores (do conteúdo ou do sistema), nem ninguém ligado de alguma maneira à Wikipédia pode ser responsabilizado pelo aparecimento de quaisquer informações imprecisas ou difamatórias ou pelo uso que se faça das informações contidas ou indicadas a partir das páginas deste sítio.
Isso não invalida as críticas contidas no artigo de Carta Capital, embora o tom agressivo, talvez usado como recurso de estilo, pareça exagerado. De fato, a qualidade dos verbeter não é uniforme e há muito o que melhorar nos procedimentos - ver algumas discussões internas dá a dimensão da fogueira de vaidades que explode em certos momentos. Mas isso também não significa que o conteúdo oferecido seja de má qualidade. É preciso entender o funcionamento da Wikipédia, aprender a ler os wikis em geral e a explorar o que eles tem de melhor. Um bom professor tem uma jóia bruta em mãos para trabalhar com seus alunos.
Como diz a própria Wikipédia: se você está doente, não se fie somente no verbete que leu, procure um médico. Ao que parece, até para pessoas inteligentes às vezes é preciso dizer o óbvio.
Opinião dos Leitores
15 Abr 2010, 23:11
23 Nov 2008, 05:33
É livre;
Possui uma bibliografia para quem queira verificar ou aprofundar seus estudos;
Incentiva a participação do leitor, contribuindo com artigos ou doações;
Permite verificar o conteúdo em outros idiomas que não são traduções e sim versões diferentes, o melhor seria visões diferentes, sobre o mesmo assunto. Isso é incrivelmente inovador imagine poder ler sobre a revolução cultural chinesa em chines e em inglês num clicar de mouse. Os dois lados da história em um click.
Os artigos que fazem referência a Wikipedia criticam sua natureza inovadora ao permitir que leigos, mas não ignorantes, contribuam com o que estudaram ou compreenderam sobre o tema exercendo o direito de livre expressão, quando o governo queria que sómente jornalistas, formados em jornalismo, exercessem a função de jornalistas os mesmos, jornalistas, chamaram de autoritarismos e de censura blá blá blá. Agora quando o cidadão quer se expressar, não através de um jornalista, que muitas vezes sabe um pouco sobre tudo, mas através de um teclado e um computador isso é ruim e não censura.
Os jornalistas, com algum conhecimento na área de educação, poderiam criticar é o ensino no Brasil que não aprendeu ainda a tirar o melhor da internet e aos professores que muitas vezes passam trabalhos escolares para poderem registrar o conteúdo como dado sem ter de preparar material de qualidade para seus alunos e também as precárias condições das bibliotecas públicas do país, é mais fácil criticar o novo do que fazer um trabalho sério sobre os trabalhos escolares e a internet.
Para concluir até mesmo a revista citada não é uma fonte séria para os trabalhos escolares porque seus artigos não são frutos de pesquisas científicas, suas manchetes são norteadas pelo epelo a compra da mesma e não tem nenhum compromisso com a divulgação científica, a não ser que lhe rendam alguns reais a mais.
Agora sim para concluir, nos tempos da ditadura o geverno retirou disciplinas como folisofia, sociologia e similares dos currículos escolares e as substituiu por Organização Social e Política Brasileira (OSPB) e Educação Moral e Cívica, isso produziu uma geração que não sabe pensar e questionar, os trabalhos escolares são fruto da geraçào fast-food, para que fazer se já existe pronto.
02 Set 2007, 02:40
O aviso geral foi o ponto chave de todo seu texto. É uma enciclopédia livre a qualquer um! Não se pode culpar um grupo pequeno de pessoas bem intencionadas a juntar conhecimento por momentos de pessoas não tão bem intencionadas que ligam-se a ideologias, ou em casos piores ao vandalismo claro.
Citar verbetes instáveis de política é fácil. Melhor um verbete que é constantemente alterado para evitar afirmações absurdas (ainda que persistam) do que ler um texto de uma revista conhecida e perceber claramente ali, uma manipulação ideológica sobre uma questão política alheia à minha pessoa.
Deviam culpar o NOSSO sistema de ensino; e não "leigos" (assim pensa o jornalista, mas que são bem cientes do que escrevem) que não premia o aluno que vai na wikipedia e a melhora quando vê algo errado e pesquisa em diversas fontes para fazê-lo; e pesquisando, aprende e ensina (e quando de fato o faz dessa forma, jamais ensina de forma tão medíocre quanto alegado pelo jornalista da Carta Capital). A wikipédia deve ser somente um portal de entrada, como bem disse: "jóia bruta". Vamos ensinar a ler!
26 Jun 2007, 17:13
Você fez suas as palavras dele, não o contrário, certo?
02 Mar 2007, 10:46
Também acho, tenho um link direto na barra do firefox e uso muito para pesquisas rápidas. Em conjunto com o google e um dicionário online - e temos um poderoso conjunto de ferramentas para entender melhor os jornais, os artigos científicos e quetais.Por exemplo, queria saber com quantos anos morreu Fernando Pessoa, uma rápida busca é vejo que ele nasceu em 1888 e morreu em 1935, logo, com 47 anos. Gosto e uso muito. A wikipedia é cool.
26 Fev 2007, 19:17
Artigos Publicados
- Pirataria, palavra proliferada
30/03/2011 - As revoluções políticas e as mídias sociais
15/03/2011 - Mais-valia 2.0
14/07/2007 - Jornalismo Livre: uma proposta para a incorporação da liberdade na prática jornalística
14/05/2007 - Software livre e Creative Commons, a questão da autoria
23/04/2007 - A Microsoft morreu
17/04/2007 - Liberdade? Que liberdade?
07/03/2007 - Wikis: é preciso aprender a ler
24/02/2007 - Liberdade social mundial
07/02/2007 - Nos ombros dos gigantes
17/12/2006 - Computador para Todos reduz pirataria
25/11/2006 - Seu computador vai virar uma TV?
21/11/2006 - O que é seu é meu
06/11/2006 - Os donos dos cabos querem controlar a rede
10/10/2006 - A virtualização do desktop e a googlezação da web
26/09/2006 - Efeito Copyleft
22 de setembro de 2006 - Quem recebe é o Ecad russo
19 de setembro de 2006 - Partido pirata e as eleições na Suécia
17 de setembro de 2006 - Vida pré-paga
28 de janeiro de 2006 - Política e linguagem nos debates sobre o software livre
26 de agosto de 2005 - Destino: Túnis
17 de maio de 2005 - A la carte
17 de março de 2005 - Livre acima de tudo
29 de novembro de 2004 - Os donos do saber
21 de novembro de 2004 - O prazer de compartilhar
20 de novembro de 2004 - Monopólio da cultura em declínio
2 de outubro de 2004 - Dois mundos, duas licenças
18 de setembro de 2004 - Eles querem viciados
4 de julho de 2004 - A pisada do gigante
20 de junho de 2004




