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NGBackup - uma nova plataforma brasileira de proteção de dados escrita em Rust

Colaboração: Rubens Queiroz de Almeida

Data de Publicação: 28 de julho de 2026

Em um cenário no qual ataques de ransomware, falhas de hardware e erros humanos podem comprometer anos de informações em poucos minutos, manter cópias de segurança deixou de ser apenas uma precaução técnica. Para empresas e órgãos públicos, o backup tornou-se parte essencial da segurança da informação e da continuidade dos negócios. É nesse contexto que surge o NGBackup, uma plataforma brasileira de backup, recuperação de dados, replicação e proteção contra incidentes cibernéticos.

O NGBackup foi apresentado oficialmente em 4 de julho de 2026. O projeto é desenvolvido pela NGStructures, empresa pertencente ao Grupo LSG Global, e nasceu da experiência acumulada por seus profissionais durante mais de vinte anos na implantação e no suporte de ambientes corporativos de proteção de dados. Heitor Faria, especialista brasileiro conhecido por sua atuação com o Bacula e autor de livros e cursos sobre backup, aparece como uma das principais figuras públicas ligadas à criação e à divulgação da plataforma. As informações institucionais disponíveis, entretanto, apresentam o desenvolvimento como trabalho de uma equipe da NGStructures, sem publicar uma relação completa dos programadores envolvidos. (1)

Embora sua arquitetura distribuída empregue componentes familiares aos administradores que já trabalharam com soluções como o Bacula, o NGBackup não é apresentado como uma simples adaptação ou atualização de um sistema antigo. Segundo sua documentação, a plataforma possui uma base de código inteiramente nova, escrita em Rust, sem reaproveitamento de código em C. A proposta foi conservar os conceitos já comprovados dos sistemas distribuídos de backup e, ao mesmo tempo, reconstruir sua implementação com tecnologias mais recentes.

A escolha da linguagem Rust é um dos elementos centrais do projeto. Grande parte dos programas de infraestrutura criados nas últimas décadas foi desenvolvida em C ou C++, linguagens extremamente eficientes, porém sujeitas a erros de gerenciamento de memória. Falhas como acesso a áreas inválidas, estouro de buffers e uso de memória depois de sua liberação aparecem com frequência em boletins de segurança de aplicações mais antigas. Rust foi projetada para impedir diversas dessas condições ainda durante a compilação. Isso não significa que um programa escrito em Rust esteja livre de qualquer falha, mas reduz uma importante classe de vulnerabilidades relacionadas à memória.

Como o NGBackup está organizado

O NGBackup utiliza uma arquitetura distribuída. Seu componente central, chamado Director, coordena políticas, agendamentos e operações. Os agentes instalados nas máquinas protegidas identificam e enviam os dados, enquanto um ou mais serviços de armazenamento recebem e administram as cópias. Um catálogo PostgreSQL conserva as informações necessárias para localizar arquivos, versões e mídias.

Essa separação permite distribuir o trabalho entre vários servidores e ampliar a infraestrutura à medida que o volume de dados cresce. A administração pode ser feita por uma interface web, pela linha de comando ou por meio de uma API REST. O sistema também adota o conceito de configuração como dados: as configurações são registradas no banco em versões imutáveis, com mecanismos de validação, aplicação atômica e reversão. Dessa maneira, reduz-se a necessidade de editar manualmente arquivos de configuração espalhados por diferentes máquinas.

A plataforma oferece suporte a várias distribuições GNU/Linux, como Debian, Ubuntu, Red Hat Enterprise Linux, Rocky Linux, AlmaLinux, SUSE, openSUSE, Arch Linux, Manjaro e BigLinux. Também contempla Windows, macOS e sistemas Unix, incluindo FreeBSD, Solaris, AIX e HP-UX. Essa variedade é especialmente importante em grandes organizações, nas quais servidores de diferentes gerações e sistemas operacionais precisam coexistir.

Além do backup tradicional de arquivos, o NGBackup possui plugins para bancos de dados como Oracle, PostgreSQL, MySQL, MariaDB, Microsoft SQL Server, MongoDB, Firebird, Informix, ADABAS e Progress. Entre os ambientes de virtualização mencionados na documentação estão VMware vSphere, Microsoft Hyper-V, Proxmox VE, Nutanix AHV e Apache CloudStack. Há ainda recursos destinados ao Microsoft 365, Active Directory, LDAP, HCL Notes, SFTP e ambientes de computação de alto desempenho. (2)

Deduplicação e economia de armazenamento

Uma das vantagens mais relevantes do NGBackup é a deduplicação global. Em uma organização, milhares de computadores podem conter arquivos idênticos, como bibliotecas do sistema, instaladores, documentos padronizados e imagens de máquinas virtuais. Se cada cópia for armazenada integralmente, uma quantidade enorme de espaço será desperdiçada.

A deduplicação divide os dados em blocos, identifica conteúdos repetidos e grava apenas uma cópia física de cada bloco. Os demais arquivos passam a fazer referência ao conteúdo que já está armazenado. O termo “global” indica que essa comparação pode abranger diferentes clientes, tarefas e conjuntos de backup, aumentando as oportunidades de economia.

O fabricante divulga índices mínimos e resultados reais elevados de deduplicação. Esses números, porém, devem ser compreendidos como dados fornecidos pela própria empresa. A economia efetiva depende do tipo de informação protegida. Ambientes com muitas máquinas virtuais semelhantes tendem a apresentar resultados melhores do que coleções formadas por vídeos, arquivos compactados ou dados previamente criptografados.

Imutabilidade e proteção contra ransomware

Criar backups deixou de ser suficiente diante dos ataques modernos. Muitos grupos de ransomware procuram primeiro localizar e destruir as cópias de segurança para impedir a recuperação. Por essa razão, o NGBackup oferece armazenamento imutável e compatibilidade com o modelo WORM, sigla de *Write Once, Read Many*. Depois de gravados, os dados protegidos não podem ser modificados ou excluídos durante o período de retenção definido.

O sistema também dispõe de detecção de ransomware. O objetivo é observar alterações suspeitas nos arquivos, como mudanças repentinas em grande quantidade de dados, e reagir antes que o conteúdo comprometido contamine toda a cadeia de backups. Esse recurso representa uma camada adicional de defesa, embora não substitua controles como segmentação da rede, autenticação forte, atualização dos sistemas e manutenção de cópias desconectadas ou armazenadas fora do ambiente principal.

A criptografia AES-256-GCM pode proteger os dados armazenados, enquanto o TLS protege as comunicações entre os componentes. O cadastramento dos agentes foi projetado para evitar senhas em texto aberto nos arquivos de configuração. Segredos são protegidos localmente e o catálogo armazena apenas as informações necessárias para sua validação.

Recuperação rápida e conversão de máquinas virtuais

O verdadeiro valor de um backup aparece no momento da recuperação. O NGBackup oferece restauração granular, permitindo recuperar desde arquivos individuais até bancos de dados e máquinas virtuais completas. O recurso chamado Instant Recovery procura reduzir o tempo de indisponibilidade ao possibilitar que uma máquina virtual seja acessada diretamente a partir do backup antes que toda a imagem tenha sido copiada de volta para o ambiente de produção.

Outro diferencial é a conversão entre hipervisores, conhecida como V2V, ou *virtual to virtual*. Uma máquina protegida em VMware, por exemplo, pode ser restaurada em outro ambiente compatível, como Hyper-V ou Proxmox. Isso pode facilitar migrações, reduzir a dependência de um único fornecedor e oferecer uma alternativa de recuperação quando a infraestrutura original estiver indisponível.

A replicação em tempo real complementa esses recursos ao manter dados em outro servidor ou localidade. Em caso de falha grave, a organização pode recorrer à infraestrutura secundária, diminuindo o período de interrupção. Naturalmente, o tempo efetivo de recuperação dependerá da rede, do armazenamento, do volume de dados e do planejamento realizado anteriormente.

Alta disponibilidade e administração centralizada

O Director pode funcionar em um modelo ativo e standby. Se o servidor principal apresentar problemas, o secundário pode assumir sua função. A documentação menciona mecanismos de quórum e proteção contra *split-brain*, situação na qual dois servidores acreditam simultaneamente ser o controlador principal. Esse cuidado é indispensável em plataformas responsáveis por administrar operações críticas de recuperação.

Todos os serviços podem ser configurados, recarregados e reiniciados remotamente a partir de um ponto central. Para equipes que administram dezenas ou centenas de servidores, essa centralização reduz tarefas repetitivas e diminui a possibilidade de configurações divergentes.

A existência de uma API REST também permite integrar o NGBackup a sistemas de monitoramento, portais internos e processos automatizados. Métricas compatíveis com o ecossistema Prometheus facilitam o acompanhamento de tarefas, desempenho, capacidade de armazenamento e eventuais falhas.

Edição Community e independência tecnológica

O NGBackup oferece uma edição Community gratuita, permitindo que usuários conheçam a plataforma e implantem ambientes menores sem adquirir inicialmente uma licença comercial. A empresa também mantém edições destinadas ao mercado corporativo, com plugins, recursos e serviços de suporte próprios. Antes da adoção, é recomendável verificar quais funcionalidades estão disponíveis em cada modalidade e quais condições constam da licença vigente. (3)

Outro aspecto enfatizado pelo projeto é a soberania dos dados. A organização pode manter suas cópias em discos locais, servidores NFS, armazenamento de objetos compatível com S3, fitas ou bibliotecas virtuais de fitas. Essa flexibilidade reduz a obrigação de entregar todo o acervo a um serviço de nuvem específico e permite criar políticas compatíveis com requisitos internos, LGPD e outras normas de proteção de dados.

Por ser uma plataforma lançada recentemente, o NGBackup ainda precisará construir um histórico público de estabilidade, documentar casos reais de recuperação e ampliar sua comunidade. Sistemas de backup amadurecem com testes em grande escala e com a experiência adquirida diante de diferentes equipamentos, aplicações e situações de desastre. As vantagens anunciadas pelo fabricante, especialmente os números de desempenho e deduplicação, devem ser confirmadas por testes no ambiente em que a solução será utilizada.

Ainda assim, o NGBackup merece atenção por representar uma iniciativa brasileira ambiciosa em um segmento estratégico e tradicionalmente dominado por fornecedores estrangeiros. Sua base escrita em Rust, a arquitetura distribuída, a deduplicação global, a imutabilidade, a recuperação instantânea, a conversão entre hipervisores e a oferta de uma edição Community formam uma proposta tecnicamente interessante. Mais do que criar cópias de arquivos, o projeto procura oferecer uma infraestrutura completa para garantir que os dados possam ser recuperados com segurança quando forem realmente necessários.

Referências

  1. NGBackup: enterprise backup, reborn in Rust
  2. Documentação oficial do NGBackup
  3. Comunidade NGBackup



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