você está aqui: Home  → Colunistas  →  Zona de Combate

A Microsoft morreu

Por Rafael Evangelista

Data de Publicação: 17 de Abril de 2007

O texto abaixo é de autoria de Paul Graham. Capturei o link para ele em uma lista de discussão e resolvi traduzi-lo porque, ao argumentar que a empresa de Redmond bateu as botas, Graham aponta a virtualização como uma das causas. Foi um tema que abordei aqui no final do ano passado, no texto A virtualização do desktop e a googlezação da web. Além disso, Graham também aponta o Google como maior e mais perigosa força nos dias atuais.

O texto foi escrito a partir da realidade dos Estados Unidos então algumas das características infra-estruturais que ele aponta, como a banda larga de fácil acesso, ainda não se aplicam à nossa realidade. Mas, mesmo assim, é um texto bem interessante


Alguns dias atrás me dei conta repentinamente de que a Microsoft está morta. Eu estava conversando com o fundador de uma jovem empresa sobre como o Google era diferente do Yahoo. Eu dizia a ele que o Yahoo foi impulsionado no início pelo medo que tinham da Microsoft. Foi por isso que se posicionaram como uma "empresa de mídia" em lugar de uma "empresa de tecnologia". Então olhei para ele e percebi que ele não entendeu. Foi como se eu tivesse dito a ele o quanto as garotas gostavam de Barry Manilow nos anos 80. Barry quem?

Microsoft? Ele não disse nada mas dava para dizer que ele não acreditava que alguém pudesse ter medo deles.

A Microsoft foi uma sombra sobre o mundo do software por quase 20 anos, a partir do início dos anos 80. Eu me lembro que antes deles era a IBM. Eu quase sempre ignorei essa sombra. Nunca usei software da Microsoft, então isso só me afetou indiretamente - por exemplo, no spam que eu recebia de robôs na rede. E por eu não estar prestando atenção não percebi que a sombra desapareceu.

Mas agora desapareceu, consigo perceber isso. Ninguém mais tem medo da Microsoft. Eles ainda podem fazer um montão de dinheiro - assim como a IBM, a propósito. Mas eles não são mais perigosos.

Quando a Microsoft morreu e de quê? Eu sei que eles pareceram perigosos no final de 2001, pois escrevi um ensaio na época sobre como eles eram menos perigosos do que pareciam. Eu acho que eles morreram em 2005. Eu sei que quando iniciamos Y Combinator não nos preocupávamos com a Microsoft como competidora das empresas que fundamos. Na verdade, nós nunca os convidamos para os dias de demonstração que fazemos para que as empresas se apresentem a investidores. Nós convidamos Yahoo e Google e algumas outras empresas de Internet, mas nunca nos preocupamos em convidar a Microsoft. E eles também nunca nos mandaram sequer um email. Eles estão em um mundo diferente.

O que os matou? Quatro coisas, eu acho, todas elas aconteceram simultaneamente no meio desta década.

A mais óbvia é o Google. só pode haver um homem forte na cidade, e claramente são eles. Google é hoje, de longe, a companhia mais perigosa, tanto no bom quanto no mau sentido da palavra. A Microsoft pode, na melhor das hipóteses, acompanhar com atraso.

Quando Google tomou a liderança? Haverá uma tendência de apontar isso para o lançamento de suas ações, em agosto de 2004, mas eles estavam apenas confirmando os termos do debate então. Eu diria que eles tomaram a liderança em 2005. Gmail foi uma das coisas que os colocou além. Gmail mostrou que eles poderiam fazer mais do que apenas buscas.

Gmail também mostrou o quanto se poderia fazer com software baseado na web se você usa o que mais tarde ficou conhecido como "Ajax". E essa é a segunda causa da morte da Microsoft: todo mundo pode ver que o desktop está acabado. Agora parece inevitável que as aplicações viverão na web - não apenas os emails mas tudo, mesmo Photoshop. Até a Microsoft percebe isso agora.

Ironicamente, a Microsoft, sem querer, ajudou a criar o Ajax. O x de Ajax vem de XHTMLHttpRequest object, que permite que o navegador comunique-se com o servidor no background, enquanto mostra a página. XHTMLHttpRequest foi criado pela Microsoft no final dos anos 90 para ser usado no Outlook. O que eles não perceberam é que seria útil também para muita gente - na verdade, para qualquer um que quisesse fazer com que aplicações web funcionassem como desktop.

Outro componente crítico do Ajax é o Javascript, a linguagem de programação que roda no navegador. A Microsoft viu o perigo trazido pelo Javascript e tentou mantê-lo defeituoso por quanto tempo fosse possível [1]. Mas eventualmente o mundo do código aberto venceu, produzindo bibliotecas Javascript que cresceram sobre os defeitos do Explorer, assim como vegetação cresce sobre arame farpado.

A terceira causa de morte da Microsoft foi a Internet banda larga. Qualquer um que queira pode ter acesso à Internet rápida hoje. E quanto maior o cano até o servidor, menos você precisa do seu desktop.

O último prego no caixão veio, de todos os lugares possíveis, da Apple. Graças ao OS X a Apple ressurgiu dos mortos de um jeito muito raro em tecnologia [2]. Sua vitória é tão completa que agora me surpreendo quando vejo um computador rodando Windows. Quase todos que financiamos na Y Combinator usam laptop Apple. Acontece o mesmo com os alunos da escola de empresas incubadas. Todas as pessoas da computação usam Macs ou Linux hoje. Windows é para vovós, assim como os Macs o eram nos anos 90. Então, não só o desktop não importa mais como, de qualquer forma, ninguém mais que se importa com computadores usa Microsoft.

E, claro, a Apple está na frente da corrida com a Microsoft na música também, além dos celulares e TVs que virão.

Estou feliz por a Microsoft ter morrido. Eles eram como Nero ou Cômodo - malígnos de uma forma que apenas o poder herdado torna possível. Porque lembremos que o monopólio da Microsoft não começou com ela. Ela o recebeu da IBM. O negócio software esteve enforcado por um monopólio desde meados de 1950 até 2005. Praticamente por toda a sua existência foi assim. Uma das razões de a Web 2.0 ter esse ar eufórico é o sentimento, consciente ou não, de que a era monopolística acabou finalmente.

É claro, como um hacker, eu não consigo parar de pensar como uma coisa quebrada pode ser consertada. Há alguma forma de a Microsoft retornar? Em princípio, sim. Para ver como, vislumbremos duas coisas: (a) a quantidade de dinheiro que a Microsoft tem em suas mãos; e (b) Larry e Sergey cortejando, há 10 anos atrás, todos os mecanismos de busca, tentando vender a idéia do Google por um milhão de dólares. E sendo rejeitados por todos.

O fato surpreendente é: hackers brilhantes - perigosamente brilhantes - podem ser conseguidos muito baratos para os padrões de uma companhia tão rica quanto a Microsoft. Eles não conseguem mais contratar gente inteligente, mas eles podem comprar quantos quiserem por apenas um pouco mais. Então, se eles quiserem ser um competidor novamente, é assim que devem fazer:

  1. Comprar todas as empresas de Web 2.0 que estão surgindo. Eles podem conseguir todas por menos do que eles teriam que pagar pelo Facebook

  2. Colocar todas elas no Vale do Silício, rodeadas por chumbo, formando um escudo protetor para prevenir qualquer contato com Redmond

Sinto-me seguro em sugerir isso porque eles nunca vão fazê-lo. A maior fraqueza da Microsoft é que eles ainda não perceberam o quanto são ruins, incompetentes. Eles ainda acham que podem escrever código "in house". Talvez eles possam, pelo padrão do mundo do desktop. Mas esse mundo acabou há alguns anos atrás.

Eu sei qual será a reação para este ensaio. Metade dos leitores vai dizer que a Microsoft ainda é uma companhia enormemente rentável e que eu deveria ser mais cuidadoso ao traçar conclusões baseado no que alguns poucos pensam da pequena e insular bolha Web 2.0. A outra metade, a mais jovem, vai reclamar que isto é notícia velha.

Notas

[1]Não é preciso fazer um esforço consciente para produzir software incompatível. Tudo o que você precisa fazer é não trabalhar muito na correção dos bugs - que, se você é uma empresa grande, você produz copiosamente. É uma situação análoga a escrever "teoria literária". A maioria não quer ser obscuro, eles apenas não se esforçam em ser claros.

[2] Em parte porque Steve Jobs foi estimulado por John Sculley de um modo que é raro nas empresas de tecnologia. Se o board da Apple não tivesse cometido esse erro, não haveria retorno a ser feito.

Sobre o autor

Rafael Evangelista é cientista social e linguista. Sua dissertação de mestrado tem o título Política e linguagem nos debates sobre o software livre. É editor-chefe da revista ComCiência e faz parte de algumas iniciativas em defesa do software livre como Rede Livre, Hipatia e CoberturaWiki.


Para se manter atualizado sobre as novidades desta coluna, consulte sempre o newsfeed RSS

Rafael Evangelista:     NewsFeed RSS

Para saber mais sobre RSS, leia o artigo O Padrão RSS - A luz no fim do túnel.

Recomende este artigo nas redes sociais

 

 

Veja a relação completa dos artigos desta coluna

Error: No database selected