Nas asas do software livre

Por Paulino Michelazzo

Data de Publicação: 31 de Janeiro de 2008

Retornando para a terra brasilis tive a oportunidade de conhecer uma das melhores companhias aéreas do planeta, a Emirates. Voando em um moderno Boeing 777-200LR com um serviço de bordo impecável e um bom conforto na classe econômica, o que me chamou verdadeiramente a atenção foi o sistema de entretenimento criado pela Panasonic Avionics existente no dentro do avião. Mais de seiscentos canais de áudio e vídeo, visão das câmeras instaladas na frente do avião e embaixo deste, mapas, rotas, notícias e tudo aquilo que pode se imaginar em matéria de informação. Também pudera, numa rota com quase quinze horas de vôo, somente uma quantidade tão grande de passatempos para manter seus mais de duzentos e cinquenta passageiros sentados sem reclamar.

Com aquele ímpeto nerd que assola todos os que trabalham com tecnologia, logo após me acomodar no assento, tomei as rédeas do controle deste centro de entretenimento: um misto de joystick de videogame com telefone, leitor de cartão de crédito e controle remoto. Nem precisava, todas as funções podem ser acessadas também pela tela sensível ao toque, o que permite qualquer criança ter o que fazer por horas a fio. Mas claro, de tanto mexer com aquele interessante brinquedo e plugar meu pen-drive na porta USB do encosto, o sistema entrou em colapso congelando um filme que tentava a todo custo tirar a legenda em árabe para colocar qualquer outra coisa "legível".

Neste momento veio o medo de ter perdido aquele que seria meu companheiro durante as próximas longas treze, quatorze horas de vôo. Aflito, chamo uma das comissárias e peço um "reboot" de meu sistema (coisa que já tinha feito em uma viagem entre a Malásia e a Alemanha numa outra companhia). Esta, toda faceira, me diz que não é necessário pois em poucos segundos o sistema retorna automaticamente ao estado inicial. Claro que a informação da comissária soava para mim como uma piada de mau gosto mas resolvi pagar para ver. Mal acabei de "dispensá-la" e o sistema começa o processo de reboot que, para minha surpresa, apresenta mensagens de kernel do Red Hat carregando diversos módulos que gerenciam as opções existentes em cada uma das poltronas. Neste momento acreditei: não é somente Jesus que salva; pinguins também fazem sua parte!

Mas porquê justamente Linux num aparelho destes? A resposta: confiabilidade; nada mais que isso. Me desculpem os idólatras de plantão mas aqui não cabe saber se o sistema é software livre, se é gratuito ou se é qualquer outra coisa. A necessidade de ter um sistema funcional suplanta qualquer filosofia que possa existir por trás do software. Imagine se vinte porcento dos aparelhos "dão pau" no meio do vôo e não retornam ao estado inicial. Seriam ao menos cinquenta pessoas com "cara de paisagem" xingando baixinho a genitora dos programadores e prontas para iniciar um motim dentro da aeronave. Alguns não ligam para suas mães, mas outros...

Entretanto não foi o reboot que me interessou pois este pode ser configurado ou programado na maioria dos sistemas operacionais da atualidade. O gerenciamento do equipamento por Linux permite futuramente que qualquer pessoa possa se conectar ao mundo lá embaixo por meio de seu laptop. Isto também poderia ser feito com outro sistema operacional? Claro que sim. Mas convenhamos, não seria nada interessante ver um vírus se propagando dentro de um Boeing como você dentro, principalmente se a empresa desenvolve homéricas soluções como colocar na mesma rede, equipamentos de entretenimento e de operação do avião. Os céus iriam se tornar um show de estrelas cadentes de aço caindo sobre nossas cabeças.

No mesmo caminho anda a cidade-país de Cingapura. Conhecida como a pérola do sudeste asiático, seu governo já viabiliza esforços para levantar ainda este ano uma gigante rede sem fio com o intuito de prover acesso a Internet à todos os seus cidadãos, estejam estes em qualquer local de seu território e até mesmo debaixo dele. Aparentemente simples de ser resolvido com meia dúzia de hotspots, o projeto esbarra no mesmo problema: confiabilidade. Não é possível permitir que uma epidemia eletrônica dizime toda a comunicação do país, tirando-o do mapa ou, no mínimo gerando um caos digno de privatizações brasileiras. Para completar, as rígidas regras de convivência daquele país não permitem que determinados conteúdos disponíveis na grande rede (como pornografia de qualquer tipo) sejam acessados. Então aqui encontra-se outro problema monumental a ser resolvido: quem é que aguenta a filtragem e monitoramento de quatro milhões de habitantes com acesso ao que existe de melhor em matéria de tecnologia? A resposta deixo para os leitores descobrirem.

Este "relato" não é propaganda de nada, ao contrário. Somente são colocadas questões nas linhas e entrelinhas para que seguidores de várias vertentes pensem além da tecnologia em sí. Muitas vezes nos apoderamos de discursos filosóficos e até mesmo sectários para defender determinada posição, o que não é realmente preciso. O pragmatismo pode de várias formas mostrar soluções viáveis para os problemas que iremos enfrentar adiante, não sendo necessário apegar-se à exemplos do passado para provar que bom senso vence qualquer agência de propaganda.

Boa leitura!