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O Cordeiro na Pele do Lobo e Vice-versa

Por Frederick Montero

Data de Publicação: 01 de Dezembro de 2006

Especular sobre o futuro pode ser uma tarefa ingrata, já que na maioria das vezes os pretensos "futurólogos" acabam dando com os burros n'água. Uma vez questionado sobre como ele imaginaria o futuro da humanidade, o filósofo francês Henri Bergson respondeu que, se ele soubesse como seria o mundo no futuro, então aquela previsão não mais seria o nosso futuro e sim o presente. Mas o estudo do passado ajuda a criar hipóteses mais plausíveis a respeito do futuro, através da análise de padrões que podem se repetir de tempos em tempos, como em estatística ou em economia. A história da informática enquanto um produto de consumo das massas ainda é muito curta para tirarmos lições que possam nos ajudar a compreender os intrincados movimentos sobre o complexo tabuleiro do desenvolvimento de equipamentos, programas e sistemas operacionais. Porém volta e meia, sempre é bom darmos uma olhada no passado, verificarmos e analisarmos os eventos de outrora para não sermos pegos de surpresa no futuro.

Há um articulista muito interessante chamado Daniel Eran Dilger, que costuma escrever análises a respeito da evolução e das estratégias de marketing da Apple Computer e da Microsoft, sempre tendo como base a história dessas duas companhias, para destrinchar o modo como elas operam e suas respectivas filosofias de trabalho. Em um de seus últimos artigos a respeito da futura batalha entre o Windows Vista e o MacOSX Leopard, Daniel Eran compara a via-crúcis no desenvolvimento do Vista com o tortuoso desenvolvimento do sistema operacional da Apple entre os anos de 1991 e 1997. Na análise de Daniel, enquanto que na década de 1990, a Apple patinava em atualizações cosméticas do seu sistema operacional, a Microsoft lançava sucessivas atualizações do Windows, aprimorando funções e ferramentas e deixando a Apple comer poeira na concorrência, enquanto esta pensava em qual caminho deveria seguir com relação ao futuro dos seus negócios. Agora porém, de 2001 a 2007, numa surpreendente inversão de papéis, a Microsoft terá levado seis anos na construção do Windows Vista enquanto a Apple haverá disponibilizado seis versões diferentes do MacOSX. A exemplo da Apple no período do System 7, a Microsoft no momento estaria lutando para sair do beco sem saída criado pela sua estratégia de marketing e para buscar um caminho muito menos pedregoso do que aquele que a conduziu até o Vista. A solução da Apple para sair do poço no qual se encontrava, naquela época, passou por abraçar o código livre, abandonando a estrutura tradicional do seu sistema operacional e consequentemente diminuindo a sobrecarga no aprimoramento das bases do novo MacOSX. Isso lhe permitiu focar no desenvolvimento de novas tecnologias, dentro de uma visão global dos negócios, integrando os diversos elementos por ela criados em uma macroestrutura chamada por ela de .vida digital..

A Microsoft sempre procurou vender seus produtos criando uma cadeia de programas na qual a aquisição de um elo nesta corrente leva o consumidor por inércia ou obrigação a consumir os outros elos até fechá-lo no centro de um círculo vicioso. Sua idéia era impedir a entrada de novos concorrentes que pudessem de um modo ou de outro conduzir a experiência do usuário de computadores por fora de seus dois principais produtos: o sistema operacional Windows e o Office. No pensamento da Microsoft, ao dominar todas as portas de entrada do usuário ao acesso e a manipulação das informações, ela garantiria a manutenção das suas vendas e, consequentemente, a sua margem de lucro. Quando na década de 1990, Larry Ellison da Oracle convencera Bill Gates de que no futuro todos os programas seriam acessíveis pela internet, a Microsoft ficou obcecada em investir pesadamente em um navegador próprio e ceifar a possibilidade do Netscape de se impor como a principal janela para a rede mundial de computadores. O Netscape então representava para a Microsoft dois grandes perigos no horizonte. Primeiro, porque libertaria os usuários de computadores da armadilha das atualizações constantes de programas, na possibilidade de que ferramentas como planilhas de cálculo e editores de texto viessem a ser disponibilizados através da internet. Em segundo lugar porque, se o Netscape ou outro navegador qualquer se impusesse como principal veículo para os serviços ofertados pela internet, haveria o risco dele virar um sistema operacional em si ou até mesmo a interface gráfica primordial sobre o Windows. Para a Microsoft era preciso garantir que a experiência digital de todas as pessoas se concentrasse em torno do seu sistema operacional e dos serviços que ela disponibiliza, de modo a evitar que a corrente que mantém os usuários presos às suas ferramentas não se rompa. Então a cada novo mercado que surgia na área da informática, ela se sentia na obrigação de criar um novo elo para a sua corrente, lançando o seu próprio produto para esse mercado emergente e ligando as suas funcionalidades com as ferramentas dos seus outros programas.

O problema é que sua estratégia de marketing se revela uma tática suicida a longo prazo, do mesmo modo como a corrida armamentista levou a União Soviética à bancarrota. A cada elo, a corrente aumenta de tamanho e complexidade. Algumas vezes, os novos elos representam a entrada em um novo mercado no qual é preciso sustentar amargos prejuízos, como no caso do xBox. Mas a entrada de novas e fortes peças no complicado jogo da informática, como o Google, o iPod/iTunes, o YouTube, o MySpaces, o Linux, a Palm, o Firefox, mais a herança de todo um passado no qual negligenciou diversas questões, como segurança, para citar um exemplo, em função de uma maior agilidade para abocanhar novos negócios, tudo isso está agora pesando sobre a empresa. O esforço para conseguir se infiltrar e dominar todos os mercados nos quais acredita existir algum perigo para a sua estratégia de vendas faz com que perca o foco técnico e monetário dos seus principais produtos, assim como um malabarista que tenta manter no ar a maior quantidade de bolas possíveis. Chega um momento no qual por mais habilidoso que o malabarista seja, ao tentar agarrar mais uma bola, corre o risco de deixar caírem todas as outras. E essas bolas quase caíram com o atraso da nova versão do Windows. Porque muitas das funcionalidades que ela havia prometido no início do projeto foram uma a uma sendo abandonadas, até o ponto de muitos críticos chamarem o Windows Vista de Windows XP Service Pack 3. Ou seja, traduzindo o trocadilho, o Vista nada mais é do que uma atualização tapa buraco para acalmar o anseio de novidades da opinião pública e dos fabricantes de computadores.

Neste caso as semelhanças entre a Microsoft de agora e a Apple da década de 1990 se aprofundam ainda mais, porque a Apple enfrentou o mesmo problema em julho de 1997, ao lançar o MacOS 8. Pois inicialmente o sistema operacional deveria ser nomeado 7.7. Mas depois de seis anos desde o lançamento do System 7, a pressão por um novo sistema operacional e também a jogada jurídica para terminar com a fabricação dos clones dos Macintosh fizeram com que a Apple avançasse na nomenclatura do sistema. Neste meio tempo, a Apple já se preparava para traçar um novo caminho na direção da empresa e reconstruir as bases do seu sistema operacional que começava a demonstrar o peso de muitas estruturas antigas na sua base. Entre as opções que ela andava testando (como o BeOS), prevaleceu aquela de se trabalhar com o FreeBSD, a versão do UNIX desenvolvida pela Universidade de Berkeley, para desenvolver a estrutura do que hoje conhecemos como MacOSX. Desde 2000, antes do lançamento do MacOSX, a Apple se comprometeu com a filosofia de desenvolvimento OpenSource a tal ponto que, apesar de manter para si a interface gráfica, o código no cerne do sistema operacional, chamado de Darwin, está disponível na página da empresa.

Aqui cabe então uma pergunta: até que ponto a Microsoft estaria disposta agora a tomar a mesma atitude que a Apple teve que tomar no final do século passado? Difícil dizer, pois isso dependerá de o quanto ela está propensa ou pressionada pelas circunstâncias a dividir o desenvolvimento de novos produtos com outros parceiros. A sua aproximação com a Novell talvez seja um indicativo de alguma mudança de pensamento dentro da empresa. Mas uma mudança completa de mentalidade é um passo gigantesco que é duro de ser concluído por uma companhia que tem responsabilidades comerciais com noventa por cento dos usuários de computadores no mundo. A Apple por sua vez percebeu que não adianta manter controle completo sobre todos os aspectos relativos ao cerne do sistema operacional e concentrou seus esforços na experiência sensorial e intuitiva do usuário com o seu computador, protegendo legalmente os aspectos gráficos, visuais e de metodologia dos seus produtos. Ainda que a estrutura básica do MacOSX seja OpenSource, a Apple regularmente patenteia detalhes da sua interface gráfica, assim como de determinados procedimentos entre programas e equipamentos. Se a Microsoft seguisse por um caminho semelhante, poderíamos até vir a imaginar que um dia ela venderia com exclusividade uma interface gráfica Windows rodando sobre um sistema Linux ou algo do gênero. Pura hipótese ou especulação baseada nas semelhanças entre dois momentos históricos distintos, pois se eu pudesse prever o futuro, ele não mais seria o futuro e sim o nosso presente.

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Opinião dos Leitores

ANA MARIA BARBOSA SILVA
12 Mar 2007, 18:23
Deu num jornal que o Larry Ellison, auto proclamado arquí-inimigo da Microsoft disse"O Bill Gates assantou o banco errado". O que ele quis dizer com isso? É possível me explicar?
Grata
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