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Google e Apple: União de Dois Gigantes

Por Frederick Montero

Data de Publicação: 17 de Novembro de 2006

A notícia mais retumbante no mundo da informática no ano de 2006 com certeza foi a compra do YouTube pela Google. Porém ao longo do ano, uma pequena notícia passou quase despercebida para grande maioria dos internautas: Eric Schmidt, CEO da Google agora ocupa uma cadeira na mesa de diretores da Apple Computers. E qual a relevância nisso? Muitas vezes essas cadeiras servem apenas para as empresas trazerem publicidade, aliados ou o foco de uma comunidade para o seu lado, sem que esses diretores venham a realizar qualquer projeto concreto dentro desta empresa. Para exemplificar, atualmente Al Gore, o vice-presidente dos Estados Unidos durante a era Clinton, é uma das pessoas que faz parte dessa diretoria. Pode não significar nada a nomeação de Eric Schmidt. Mas pode significar tudo mais adiante...

Nos últimos anos, a Apple vem se destacando gradativamente no mercado de entretenimento desde a introdução do reprodutor de mp3, o iPod, seguido depois pela loja virtual de música e filmes, iTunes. Hoje, ela domina setenta e cinco por cento do mercado de reprodutores de mp3, tanto que o iPod quase é sinônimo desse tipo de aparelho. Além disso, mais de oitenta por cento das músicas vendidas pela internet passam pela sua loja virtual, de modo que mais de um bilhão e meio de músicas já foram vendidas pela Apple, segundo sua última divulgação. E o sucesso continua com relação aos programas de televisão, segmento no qual ela começa a incomodar a venda de DVDs em lojas como o WalMart. Apenas com oito semanas de vendas de filmes pela internet, cujo catálogo está restrito aos estúdios sob o controle do grupo Disney, ela já vendeu meio milhão de títulos. Não representa muito se contarmos que apenas o desenho animado Carros, da Pixar, vendeu 5 milhões de DVDs em uma semana. Mas é bastante se pensarmos que o mercado de DVDs já está consolidado, enquanto que o de venda de filmes pela internet está apenas começando. E cada vez mais os iPods se transformam em um padrão de mercado, pois para o ano que vem já está previsto que setenta por cento dos automóveis produzidos nos EUA sairão de fábrica com algum tipo de integração para o aparelho. Além disso, quatro companhias aéreas projetam incluir conexões para o reprodutor de mp3 nos assentos dos passageiros. Em resumo, todas estas estatísticas servem apenas para mostrar que, no momento, a Apple representa para o entretenimento digital o que a Microsoft representa no segmento de sistemas operacionais.

Em setembro deste ano, em um evento voltado a apresentar novos modelos de iPod para a imprensa, a Apple, em um gesto inédito, anunciou um produto que somente será lançado em janeiro do ano que vêm, o iTV. Pelo resumo fornecido até o momento, o iTV será um aparelho que permitirá assistir aos filmes e programas baixados no computador em uma televisão normal, através de uma conexão sem fio. Assim os mesmos filmes e séries de televisão que ela vende para os iPods poderão ser vistos em qualquer televisão normal, com a comodidade de um controle remoto e uma interface simples de acesso aos vídeos. Com isso a companhia da maçã estaria fechando o círculo em torno do entretenimento digital, que iria da oferta de conteúdo até a disposição de aparelhos para assistir aos conteúdos ofertados.

Mas onde entra a Google nesta jogada?

A Google teria dois pontos primordiais para apertar ainda mais o laço do mercado do entretenimento em torno dos espectadores. O primeiro e mais óbvio depois da aquisição do YouTube é a oferta de conteúdo. Antes mesmo da compra desta companhia, a Google já possuia o seu próprio sistema de armazenamento e distribuição de vídeos com o Google Video, mesmo que neste campo ela fosse apenas coadjuvante na distribuição de vídeos caseiros e amadores. No decorrer do ano, o que vimos foi a segunda colocada no ramo comprar o primeiro colocado, fazendo da Google a líder absoluta. Dia desses, em uma conversa com outro colunista da Dicas-L, Jaime Balbino me chamou a atenção para o fato de que a estratégia da Google é ofertar o maior número de serviços pela internet, mesmo que a princípio sejam de graça. A lógica é simples, pois o lucro da Google advém da propaganda e quanto mais pessoas utilizarem a rede mundial de computadores, maiores serão os seus lucros. A Apple trilha por uma estratégia muito semelhante a da Google, porque o seu interesse fundamental consiste em criar uma base de usuários cada vez maior de seus computadores e aparelhos eletrônicos. Quanto mais pessoas comprando música e vídeos a preço baixo, ouvindo podcasts ofertados de graça ou convertendo os CDs que tem em casa através do iTunes para o iPod, melhor para ela. Mas o sucesso que agora ela obtém no mercado audiovisual começou a ser delineado muito tempo atrás ainda.

Depois que Steve Jobs voltou a empresa com a compra da NeXT, uma de suas principais linhas de trabalho foi colocar em funcionamento tecnologias que a Apple havia desenvolvido, mas deixara para outros parceiros criarem produtos em cima deles. Entre elas, estava o Quicktime. Quem costuma navegar pela internet, conhece o Quicktime como um reprodutor de áudio e vídeo que perdeu a liderança para o Real Player e o Windows Media Player do mercado que ela havia inaugurado. Primeiro, o Real Player dominou o mercado popularizando o streaming de imagens e permitindo assistir vídeos quase que instantaneamente, mesmo em detrimento à qualidade da imagem e do som, acabando com a frustração de milhares de pessoas que antes esperavam horas pelo vídeo ser baixado em seus computadores. Ainda hoje, eu me lembro de quando eu e meu pai deixávamos o computador ligado durante toda uma noite para baixar um pequeno trecho de um minuto de vídeo em Quicktime. Depois a Microsoft apelou para a comodidade de incluir o programa reprodutor de áudio e vídeo no sistema operacional mais utilizado no mundo. Com o Windows Media Player em quase todos os computadores do mundo, não havia mais necessidade de se navegar até qualquer página para baixar um programa que reproduzisse os vídeos distribuídos pela internet. O Quicktime, que apesar de haver inaugurado uma nova fase na evolução da informática, lentamente se viu reduzido ao posto de mero coadjuvante nos palcos do entretenimento pela internet.

Mas o conceito por trás do Quicktime foi desde o seu princípio diferente daquele que permeia seus concorrentes. Enquanto que a preocupação primordial do Real Player e do Windows Media Player é uma reprodução eficiente de áudio e vídeo, como músicas e filmes, o Quicktime sempre buscou se posicionar como um reprodutor de multimídia, isto é, seu interesse era desde o início agregar interatividade e outros serviços aos conteúdos de áudio e vídeo. Tanto era assim que muitos jogos de computadores carregavam consigo o instalador do Quicktime embutido. Mas no final do século passado, muitos dos seus recursos estavam subutilizados em programas de outros desenvolvedores. Então a Apple começou a criar programas que utilizassem esta tecnologia eficientemente, como o Final Cut Pro, adquirido da Macromedia, e o iMovie, oferecido de graça junto com os computadores da companhia. Porém esses programas se restringiam exclusivamente à edição de vídeo e ainda não tocavam em todo o potencial que o Quicktime poderia oferecer. Assim até o final do século vinte, o Quicktime se apresentava como um gigante adormecido, a espera de vestir a roupa certa para despertar.

Então surgiu o iTunes.

O programa apareceu a princípio como uma resposta da Apple à sua entrada tardia no universo da música digital. Depois do sucesso dos primeiros iMacs, aqueles em forma de bolinha colorida transparente, a Apple apostou no vídeo digital como a próxima revolução no mundo da informática. Então passou a montar seus computadores com leitores de DVD, buscando estar na crista da nova onda. O problema é que ela não enxergou que a maioria das pessoas estava começando a se interessar em ouvir música e a gravar CDs de música ao invés de assistir filmes em seus computadores e, portanto, preferiam computadores com gravadores de CD do que com leitores de DVD. Quando ela percebeu o erro, já havia perdido mercado e o interesse do público no iMac. Restava-lhe então tentar correr atrás do prejuízo e recuperar o tempo perdido.

O primeiro passo ela deu com o lançamento do iTunes, porque percebeu que não havia nenhum programa gratuito e eficiente na sua plataforma para reproduzir mp3. Na época, a principal função da maioria dos programas reprodutores de mp3 era a personalização da aparência dos programas por meio de skins. Mas seguindo na contramão, de novo, da tendência geral, a Apple apostou suas fichas no fato de que, com o crescimento das redes de troca de música pela internet, como o Napster, as discotecas pessoais iriam precisar cada vez mais de um sistema de organização e gerenciamento de música. Com isso, a aparência do programa deveria se manter constante e fácil de ser entendida pelos seus usuários, jogando seus holofotes sobre a experiência dos ouvintes com relação à música.

O passo seguinte, no ano de 2001, foi perceber que havia um nicho de mercado aberto e pronto para ser explorado no campo dos aparelhos reprodutores de mp3. Naquele ano, a totalidade dos mp3players oferecia pouco espaço para o armazenamento de músicas (os melhores apresentavam 256Mb), conexão lenta com o computador através de portas USB 1.0 e uma experiência complicada para transferir e organizar as músicas nos aparelhos. A solução da Apple foi oferecer um aparelho com a capacidade inacreditável de 5Gb, conexão através de porta Firewire, mais rápida que a USB 1.0, e facilidade de uso, tanto por parte da interface do aparelho, quanto pela sua comunicação com o computador, através do programa iTunes.

Apesar de todo sucesso que o sistema iPod-iTunes-Loja Virtual tem obtido, pouca gente percebe que, por trás da interface do iTunes, quem realmente realiza todo trabalho pesado é o Quicktime. Enquanto uma mera "pele" para o verdadeiro reprodutor de conteúdo, o iTunes tem acesso a todas as possibilidades que o Quicktime fornece. Entre essas possibilidades estão o streaming de vídeo e a criação de vídeos com conteúdo dinâmico e interativo. Afinal o Quicktime é mais do que um reprodutor de áudio e vídeo. Seu foco está voltado para a experiência multimidiática dos espectadores. Imagine uma situação em que ao assistir um filme, você pode clicar nos óculos escuros de um personagem e ser lançado à página do fabricante dos óculos. Ou imagine que os anunciantes nos intervalos entre uma transmissão de IPTV mudem a cada acesso que você faz ao streaming do vídeo. Ou imagine também que esses anunciantes podem receber um informe exato e imediato da quantidade de pessoas que viram o seu produto. Perceberam aonde pretendo chegar? É exatamente neste ponto no qual entra a Google. Ela oferece conteúdo gratuito em troca de propaganda, enquanto a Apple vende mais produtos para acessar este conteúdo que só pode ser fornecido através do Quicktime.

Absurdo? Talvez nem tanto, pois uma das peças chaves dentro do Quicktime para fazer a interação acontecer se chama SMIL, uma forma de XML voltada especificamente para a construção de conteúdo interativo e dinâmico. Basta fazer uma pesquisa básica na página da Apple destinada a desenvolvedores para descobrir que uma dos objetivos mais evidenciados pela empresa com uso do SMIL é a propaganda. Entre os tutoriais para a criação de conteúdo com o SMIL, deve haver pelo menos uma dezena de referências a formas de se incluir anúncios em vídeos, o que torna clara a proposta de utilizar o padrão SMIL (e por conseqüência o Quicktime) como meio de se fazer propaganda dinâmica e interativa.

Agora, quais as implicações que podemos esperar de uma parceria da Google e da Apple na área do entretenimento digital? Por um lado, temos duas empresas conhecidas tanto pela sua criatividade, quanto pela sua preocupação em criar produtos atraentes para os usuários de computadores. Além do que, ao contrário da todo-poderosa Microsoft, por exemplo, na maioria das vezes a Google e a Apple atraem a simpatia das pessoas e delas extraem uma sensação de que elas possuem uma áurea de inovadoras, modernas e alternativas. Por outro lado temos a gigante das buscas e da propaganda pela internet aliando-se à empresa que promete dominar a distribuição e transmissão de conteúdo pela internet. Talvez ainda seja cedo para prever o tamanho que a Apple pode chegar neste mercado, mas com certeza ela parece demonstrar ter aprendido com as lições que tomou no final do século passado. E um a um, os principais concorrentes do iPod vão caindo fora do mercado e a única empresa com capacidade para enfrentar tal domínio parece já começar a entrar no mercado pela porta errada. Por mais simpáticas que essas empresas possam parecer, é sempre preocupante vislumbrar um futuro no qual duas empresas dominarão grande parcela de nossa vida digital.

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Opinião dos Leitores

mamandalinda@hotmail.com
01 Abr 2009, 22:32
como que apple está?
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