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Por Frederick Montero
Data de Publicação: 30 de Outubro de 2006
Tem momentos na história da humanidade em que nós somos convocados a posicionar nossas opiniões em relação a duas idéias completamente antagônicas. Geralmente, a mais atual sempre prevalece, mesmo que isso demande muito tempo para acontecer, relegando os defensores da perdedora ao limbo do esquecimento no papel de retrógrados e conservadores. Talvez agora estejamos passando por um desses períodos no qual devemos decidir em qual campo queremos ficar. Pode ser uma decisão consciente ou apenas uma indiferença completa a todo o processo de transformação da sociedade.
Há poucas semanas, um blog publicou o vídeo de uma juíza de futebol que por engano validou um gol marcado por um gandula. Nada de errado em publicar o vídeo, afinal foi um erro bem cômico. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato do autor do blog ter conseguido descobrir a página pessoal da juíza e alertado para as fotos dela de biquini na praia, além de comentá-los com piadinhas. Ok, o vídeo é engraçado, mas o que se ganha expondo a juíza ao completo ridículo espalhando suas fotos de biquini pela internet?
A primeira vez que eu li 1984 de George Orwell, fiquei pensando se algum dia o mundo se tornaria como o retratado no livro. Talvez não exatamente do jeito que o escritor imaginou. Pois não há serviço de segurança possível no mundo que consiga manter total vigilância sobre as pessoas, com a finalidade de controlar todas as opiniões contrárias a sua organização. Se assim fosse, os Estados Unidos já teriam vencido a guerra contra as drogas, por mais sucesso que estejam tendo para evitar um novo ataque terrorista em seu território. A vida comum das pessoas é cheia de possíveis variáveis no seu dia-à-dia, mesmo daquelas que tem um cotidiano monótono. E mesmo que não haja nenhuma novidade no nosso dia-à-dia, como conseguir vigiar todos os momentos da vida de alguém em cada um dos seus pormenores? Então, eu me pergunto, como vigiar todos os indivíduos de uma sociedade mesmo nos mínimos detalhes? Muito, muito difícil disso ocorrer, ainda que eu não acredite ser impossível.
O mais provável é que a sociedade, através da opinião coletiva, seja a própria vigilante de seus indivíduos, condenando os comportamentos que a maioria anônima despreza e elogiando os comportamentos que ela considera louváveis. Não há novidade nisso, pois por mais justa ou injusta que a opinião pública possa ser, ela é uma peça primordial em muitos dos caminhos que a humanidade percorreu. Mas na atualidade, as novas tecnologias potencializam a força da opinião pública, como uma lupa de aumento, sobre a vida particular das pessoas. Seja na rua, no trabalho ou até mesmo em casa, podemos estar sujeitos a vermos as nossas ações vigiadas por câmeras filmadoras, fotográficas ou de vigilância. Hoje em dia é comum qualquer adolescente possuir um celular com câmera fotográfica.
Então qual a encruzilhada na qual nos encontramos atualmente?
Com maior ou menor gravidade, todos nós temos falhas de comportamento, de lógica em nossas opiniões ou até de caráter. Temos estas falhas porque somos seres humanos movidos por sentimentos, desejos e manias e não máquinas programadas para agir de forma perfeita. É até um chavão escrever isso, mas serve para mostrar que conscientemente ou não podemos estar sujeitos a sermos fotografados colocando o dedo no nariz enquanto dirigimos o carro. Ou a termos um vídeo publicado no YouTube conosco observando a mulher do vizinho enquanto a nossa esposa está distraída com as crianças. Ou outro vídeo no qual somos flagrados não separando o lixo reciclado, mesmo tendo uma carteirinha honorária do Greenpeace. O erro é o que nos revela enquanto seres humanos e nesta condição somos todos iguais, tanto os que são pegos em situação constrangedora, quanto os que observam curiosos pela internet as provas da situação.
Então neste contexto surge o dilema que teremos que enfrentar: manter o direito a privacidade ou desnudar por completo o comportamento humano.
Pode parecer uma escolha fácil, afinal muitos dirão que a privacidade é um direito fundamental dos cidadãos. Mas por outro lado, as mesmas pessoas que esbravejam contra a invasão de privacidade, são as mesmas que se corroem de curiosidade a respeito do vídeo da Daniela Ciccarelli na praia ou são afoitos espectadores do programa Big Brother. Há uma contradição nisso? Sim, há porque, repetindo o chavão, somos todos seres humanos. Então inconscientemente, mesmo manifestando publicamente repúdio contra a invasão de privacidade, nós alimentamos a cultura da bisbilhotice e da curiosidade.
A solução, portanto, é aceitarmos que a vida se transformará em um gigantesco Big Brother, no qual todos estamos vulneráveis ao olhar indiscreto das câmeras anônimas?
Talvez não, porque o julgamento da opinião pública muitas vezes é cruel ou áspero e na maioria das vezes derruba a imagem de pessoas valendo-se apenas de suposições e meias-verdades. Numa sociedade na qual "a imagem vale mais do que mil palavras", as vítimas do assédio público ficam desarmadas para justificar o contexto no qual foram flagradas. Não adianta depois dizer que a foto ou o vídeo não representam a verdade completa a respeito da situação em torno das imagens. Nem preocessar os autores do flagrante. O estrago já estará feito quando fotos e vídeos forem publicados na internet. E para o público em geral, as imagens representam o espelho dos verdadeiros acontecimentos ou um raio-x da alma da vítima.
Como eu disse antes, é muito difícil manter vigilância sobre todos os momentos da vida de alguém. Mas as milhares de câmeras espalhadas pela sociedade não esperam para flagrar momentos aleatórios. Elas desejam captar fatos inusitados, momentos engraçados ou revoltantes de algum cidadão. E mesmo que estes fatos e momentos sejam únicos e excepcionais, ao serem espalhados pelo mundo, eles são generalizados pela opinião pública, como se representassem um resumo do modo de agir de uma pessoa.
Ou seja, a revolução que podemos esperar não é uma questão de defender ou lutar contra a privacidade. É sim uma questão de aceitarmos desnudar todas as peculiaridades do ser humano ou de nos preocuparmos com o uso que a opinião pública fará destas peculiaridades. Pois a tecnologia que aos poucos invade a intimidade de nossas vidas deverá nos fazer refletir qual o papel que essa opinião pública deverá exercer sobre o modo como vivemos ou somos em nossa intimidade.
Frederick Montero, diretor, produtor e editor de vídeo. Formado em Filosofia pela Unicamp, é diretor do vídeo Supermegalooping, premiado no Primeiro Festival de Vídeos pela Internet. Mantém o blog sobre mídias digitais d1Tempo Digital.
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