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Ansiedade por Conhecimento

Por Frederick Montero

Data de Publicação: 15 de Outubro de 2006

Um dia desses no meu trabalho, estava comentando com um colega a respeito de uma notícia de jornal sobre clínicas especializadas em viciados em internet, quando brinquei dizendo que o tratamento deveria ser feito com receitas enviadas por email, acompanhamento através de programas de mensagens instantâneas, troca de experiência entre viciados em comunidades do Orkut e leitura de blogs com relatos de ex-viciados.Briancadeiras à parte, o assunto é muito sério, porque o uso compulsivo da internet cresce e se torna gradativamente uma realidade tão preocupante quanto o vício do jogo. E por mais absurdo que venha a parecer, a sociedade incentiva este tipo de compulsão enquanto ela é vista como uma forma das pessoas se manterem informadas a respeito das notícias que acontecem no mundo ou enquanto um meio dos profissionais acompanharem as transformações que ocorrem no seu ramo de atividade. Qualquer um que deseje se manter atualizado através da internet vive em um constante estado de ansiedade, tentando seguir as tendências profissionais ou prever os rumos da economia, da política e da tecnologia. Isso se deriva de uma compulsão obsessiva por informação. De preferência, informação o mais recente e atual possível.

Voltando alguns dias atrás, li o relato de um comentarista sobre tecnologia no qual ele dizia que o seu computador ideal lhe proibiria de executar repetidamente tarefas supérfluas como checar manualmente os emails a cada quinze minutos, acompanhar as notícias através de RSS ou verificar de hora em hora seus recados no Orkut. Ou seja, seu desejo era que a tecnologia o preservasse de adquirir maus hábitos relativos ao seu uso, principalmente aqueles que fossem nocivos à sua saúde mental e que lhe causassem estresse mental. Ocorre que estes hábitos são fruto de uma exigência cada vez maior de respostas rápidas às nossas necessidades e dos outros. Respostas que muitas vezes acabam sendo prejudicadas pela própria ânsia em acumularmos informação, em simplesmente aprender por aprender, sem extrair qualquer resultado prático, esperando que algum dia aquilo venha a ser útil para nós.

Há uma enorme dicotomia em relação à aquisição de conhecimento e o resultado prático deste conhecimento. Pois qualquer ação apenas começa quando acreditamos que temos informação suficiente para justificar o cumprimento da ação. Logo conhecimento e ação prática são extensões de um mesmo princípio. Pois todo conhecimento aspira em ter uma aplicação. Mas não adianta desejarmos ter absolutamente todo o conhecimento em torno de um assunto antes de começarmos a agir neste campo, porque qualquer conhecimento se divide e subdivide em infinitas instâncias e segmentos. Portanto nunca haverá um fim no aprendizado a não ser que acreditemos que o conhecimento que já temos é suficiente para nós. Então onde termina nosso conhecimento, começa a fé em nossas decisões. E onde começa essa fé, também começa a nossa ação.

Acontece que quem busca constantemente por conhecimento nunca tem fé em suas convicções e por isso busca constantemente estar informado no presente para não vir a se arrepender no futuro das ações que ele venha a tomar. A procura interminável por conhecimento se torna uma mera desculpa para não defender qualquer idéia ou executar ao menos algum plano, afinal "ainda não tenho dados suficiente para afirmar qualquer coisa com certeza a respeito disto". O conhecimento vira um meio e um objetivo em si mesmo. E cada nova notícia publicada na internet, cada nova mensagem divulgada em algum fórum gera um prazer tão grande sobre o compulsivo, que a sua ânsia por informação é tranquilizada momentaneamente. Pelo menos enquanto dura o seu aprendizado. Depois disso, a ânsia por novas informações retorna, talvez ainda maior do que antes.

E para que serve afinal todo esse conhecimento acumulado se nada de novo lhe proporciona que possa ser usado para aprimorar a sua vida? Pelo contrário, o acúmulo incessante de conhecimento serve apenas para aumentar cada vez mais a ansiedade e o stress de um estilo de vida pouco saudável.

Mas agora eu extendo esta pergunta para toda a nossa sociedade e volto a indagar: para onde está nos levando todo esse conhecimento tecnológico? Pois agora podemos ver o espisódio mais recente de "Lost" pela internet sem depender dos horários dos canais de televisão. Ou agora saberemos o que a Daniela Ciccareli faz na praia com seu namorado. Mas quando escuto pessoas baterem no peito com orgulho e dizerem "vivemos na era de maior desenvolvimento da humanidade', eu sempre me recordo dos aquedutos, das estradas e dos fóruns de justiça que os romanos construiram ao longo de todo o seu império. Os gregos acumularam conhecimento durante sua rica história recheada de filósofos e matemáticos, mas os romanos utilizaram todo esse conhecimento acumulado de modo a aprimorar o bem-estar de todos os povos que conquistavam. O que nos fará mais desenvolvidos não é o conhecimento ao qual teremos acesso e sim o que faremos para aprimorar a humanidade com todo esse conhecimento. Temos a oportunidade de criarmos idéias revolucionárias como um laptop para cada criança no mundo. Ou apenas ficar clicando intermitentemente no botão de atualizar das novidades tecnológicas da semana. Às vezes é preciso dar um salto na humanidade, esquecendo momentaneamente os próximos passos tecnológicos que são oferecidos e utilizar o que já sabemos para melhorar o bem-estar dos seres humanos.

Sobre o autor

Frederick Montero, diretor, produtor e editor de vídeo. Formado em Filosofia pela Unicamp, é diretor do vídeo Supermegalooping, premiado no Primeiro Festival de Vídeos pela Internet. Mantém o blog sobre mídias digitais d1Tempo Digital.


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