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Por Frederick Montero
Data de Publicação: 10 de Outubro de 2006
Se eu pudesse votar em um padroeiro para a internet, minha escolha seria Jorge Luís Borges. Ainda que quando ele morreu a internet apenas engatinhava, este escritor argentino escreveu um conto profético intitulado "O Aleph". Não é à toa que Aleph era o nome de um provedor de internet na cidade onde eu moro.
Neste conto, Borges escreve a respeito de um ponto, o Aleph, escondido no porão de um conhecido e que permitia a visão de todo o conhecimento do universo de uma única vez. Ignorando os exageros do conto, sempre que ouço alguém comparar a internet a uma versão contemporânea da Biblioteca de Alexandria, eu penso que o Aleph é uma imagem muito mais próxima do que ela nos representa. Nos meus tempos de faculdade, eu gostava de me perder entre os inúmeros corredores de livros da biblioteca, ler aleatoriamente os seus nomes e pegar um ao acaso. O conhecimento chegava a mim não pelo que eu lia nos livros, mas pelas conexões que fazia entre um dos caminhos que escolhi para percorrer e os outros que eu já havia percorrido. Um professor uma vez me contou a história de uma citação que lera em um livro. Foi procurar mais informações sobre o autor daquela citação. Leu todos os seus livros e nunca encontrou aquela citação específica. Por acaso, um dia descobriu que o verdadeiro autor daquela citação era outro: "Ao menos eu li toda a obra de alguém que nunca leria se a primeira informação estivesse certa".
No conto de Borges, o amigo do escritor passava diversas horas por dia, mergulhado no fascínio que todo o conhecimento do universo lhe proporcionava. E quando não estava diante do Aleph, ele contava os minutos para voltar à sua presença. Ou seja, o conhecimento pleno anulava a sua existência.
Em outro conto, Borges narra a história de Fines, um homem que depois de um acidente adquiriu a capacidade de se lembrar de absolutamente tudo. A sua memória era tão prodigiosa que ele conseguia se lembrar de cada momento, cada segundo da sua vida. Então cada um desses segundos passou a ser uma lembrança independente da outra. A lembrança de um cachorro em um determinado segundo era diferente da lembrança desse mesmo cachorro no segundo anterior ou no segundo seguinte. E as diferenças entre essas várias lembranças do mesmo cachorro eram tantas que Fines se negava a aceitar que elas partiam de um único ser vivo. Para Fines cada lembrança representava um cachorro diferente, tantas eram as particularidades, as diferenças que ele via entre as diversas memórias do mesmo cachorro. A vida de Fines se tornou um tormento, porque ele não conseguia abstrair nenhuma informação relevante do mundo que o cercava.
Estes dois contos tem uma conexão intrínsica que nos faz pensar até onde a internet pode ser a nossa Biblioteca de Alexandria. A rede mundial de computadores nos fornece um acesso direto nunca visto antes a uma montanha de informações. Não nego que o acesso fácil a toda essa informação é útil para qualquer indivíduo. O contrário disso é um obscurantismo canhestro. Mas é de se pensar até que ponto este conhecimento infinito não nos transforma em um Fines ou em simples contempladores do Aleph.
Por um lado, nós nos deixamos perder numa multidão de informações que nos leva a adiar qualquer ação na busca de novas informações que corroborem algumas das anteriores. Mas sempre haverá novas informações que não sabíamos ou as informações velhas se desdobrarão em mais informações indefinidamente. Como no caso do aeroporto na Finlândia que levou vinte anos para ser construído. Sempre havia novas informações que levavam o projeto para um lado da cidade, para o outro, para modificações no projeto, alterações nas normas de segurança, etc e tal (caso você deseje se certificar da história, vá em frente, pelo menos irá conhecer um pouco mais sobre a Finlândia).
Por outro lado, o fascínio que o acúmulo de informações cria sobre nós pode resultar em um estado vegetativo no qual a visão de todo o conhecimento da humanidade pode anular a nossa capacidade de agir e transformar o mundo.
Por vezes é necessário esquecer ou ignorar determinados caminhos para que possamos construir nossos próprios e novos caminhos. Caminhos que outros poderão percorrer ou apenas criticar e reclamar da falta de sinalizações. E isso vale não apenas para a internet, mas para a construção de todo um ambiente computacional, desde os códigos de um programa até o ambiente gráfico de um sistema operacional. Porque, em determinados momentos, adiamos o lançamento de um programa à espera de mais informações sobre aquela função que você planeja um dia utilizar. Ou o superlotamos de funções que confundirão qualquer um que venha a utilizá-lo.
Em algumas ocasiões, é necessário construírmos as paredes de um labirinto em nossa volta do que caminharmos em uma floresta de opções. Conforme o caminho é percorrido, podemos baixar algumas paredes ou abrir novas portas. Mas apenas quando o caminho de ida e volta já nos é bem familiar. Pois é fácil perder-se quando se tem todos os caminhos do mundo a sua disposição. Do contrário, desejaremos isolar-nos em um quarto escuro, como fez Fines.
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