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Qual o futuro da OLPC?

Por Jaime Balbino

Data de Publicação: 21 de Dezembro de 2007

No dia 18 de dezembro foi realizado o pregão eletrônico de acordo com a licitação pública para a compra de 150 mil laptops educacionais pelo governo brasileiro. Tais máquinas vão compor o piloto com 300 escolas espalhadas no país sob a supervisão do grupo de estudos "Um Computador por Aluno", criado pelo presidente Lula e formado por uma equipe de renomados pesquisadores brasileiros.

O pregão eletrônico contou com 8 participantes, se arrastou por dois dias e deu a vitória parcial à Positivo Informática que ofereceu o menor lance livre para uma versão revisada do Classmate da Intel, que promete atender todas as disposições do edital (as versões conhecidas até agora deste equipamento não cobriam ainda alguns requisitos, como ter câmera de vídeo embutida).

A fundação OLPC (One Laptop per children) participou da licitação através de uma parceria local com a SIMM (Sistemas Inteligentes para o Mercado Móvel) e ficou com o terceiro melhor lance livre, atrás da Digibrás/CCE.

Para saber mais sobre essa licitação, que se encontra até o momento suspensa por ter extrapolado a previsão orçamentária inicial, visite o blog Mobilidade e Educação.

O fato é que este resultado afasta a OLPC da segunda fase do projeto UCA. Apesar da implementação desta ou daquela tecnologia não interferir tão profundamente nos objetivos estatais a serem alcançados esta foi uma perda considerável para a fundação internacional e para seus apoiadores no Brasil.

Fiz uma entrevista com David Cavallo, principal representante da OLPC no Brasil. Transcrevo abaixo as impressões da OLPC sobre a influência do Brasil no desenvolvimento do modelo defendido pela entidade, sobre a licitação, nossa política de desenvolvimento, a concorrência contra os monopólios de tecnologia e o futuro da entidade sem a ampliação da experiência brasileira.

A entrevista foi feita em inglês e a tradução tentou respeitar o ponto de vista do entrevistado. A versão original encontra-se no blog Mobilidade e Educação.

Não vou fazer interpretações sobre as afirmações de David Cavallo, por isso peço uma leitura atenta.

Aproveito para desejar a todos um feliz 2008 com muitos desafios e superações!

Jaime Balbino - O governo brasileiro foi o primeiro a se interessar em por em prática as idéias do Prof. Nicolas Negroponte de fornecer um computador para cada criança dos países em desenvolvimento. O Presidente Lula poderia até ser considerado uma espécie de patrono da fundação OLPC. Além disso, muitos educadores brasileiros confirmaram os progressos trazidos pelo modelo desenvolvido pela Fundação e mesmo o edital da licitação incorporou muitas das idéias desenvolvidas pelo OLPC, o que demonstra o quanto o Brasil as considera avançadas. Então, o que deu errado? Foram os elevados impostos de importação do Brasil? Falta de experiência para a OLPC e seu parceiro em licitações públicas? Houve atraso na realização de uma oferta melhor que R $ 104,5 mi? Chegou-se ao lance máximo? Faltou ousadia?

David Cavallo - Nós somos muito gratos pelo entusiasmado apoio inicial e pelo trabalho do governo, incluindo o Presidente Lula, seu conselheiro Cezar Alvarez e o coordenador do projeto Jose Luis Aquino. A resposta do governo brasileiro deu credibilidade à iniciativa global. Testemunhamos que desde 2005 o conceito de olpc (a idéia, não a organização) passou a ser discutida com vistas a ser implementada em nível mundial.

Eu pessoalmente penso que as coisas fugiram do controle um pouco por uma série de razões e que a estrutura do pedido de compra do governo conduziu a um resultado que ninguém parece ter ficado satisfeito. Nós somos uma organização sem fins lucrativos. O nosso preço para qualquer país, incluindo o Brasil, é o custo do próprio laptop. O Uruguai comprou o laptop por US$ 197. Eles também compraram com o objetivo de levar conectividade para casas e comunidades. Nós não damos lances acima dos nossos custos. E também não podemos dar lances abaixo dos nossos custos, como as organizações que visam lucro podem fazer de maneira a ganhar com outros produtos e serviços ou para bloquear a concorrência e aumentar os preços posteriormente.

Portanto, a grande diferença de preço foi em função das estranhas condições impostas aos lances. Isso inclui locais para montagem (NÃO A PRODUÇÃO OU FABRICAÇÃO, para as quais ainda não há condições neste momento no Brasil), os vários impostos, transporte (de componentes, que também eleva os custos), e uma garantia de 3 anos. Além disso, decidiu-se selecionar apenas com base no preço sem considerar a tela, consumo, respeito ecológico ou conectividade dentro e fora das escolas.

A Melhoria significativa na educação continua a ser o maior objetivo da OLPC. Temos metas secundárias de usar o projeto para ajudar o desenvolvimento econômico dos países, bem como possibilitar a conectividade para as famílias e as comunidades. O governo brasileiro apoiou essas metas. No entanto, uma política séria de desenvolvimento econômico em alta tecnologia visa obter reais ganhos de produção; de capital intelectual; contribuições verdadeiras e não apenas pequenos ganhos com salários baixos, de baixo crescimento, em setores não-sustentáveis como a montagem (no Brasil são evidentes os problemas da política industrial em microeletrônica onde o foco na proteção às montadoras é esmagador), mas ganhos em design, engenharia e ganhos em produção em outros setores, como a tecnologia de display, a criação de redes, software, conteúdos e serviços. Nós nos oferecemos repetidas vezes para trabalhar com o governo para usar a OLPC para alavancar essas áreas e não apenas na montagem. E Isso não aconteceu. Então, a política fiscal e o foco na montagem local leva a custos elevados sem trazer benefícios sustentáveis. Isto é uma pena.

Isto cria uma relação direta entre o compromisso de dar mais portáteis para crianças, professores e escolas com o governo dar uma subvenção direta a 1 montador local. Não há nada contra o montador, apoiamos ele. Mas não é uma política que trará os maiores benefícios possíveis a longo prazo para o país.

JB - A OLPC só trabalha com os laptops educacionais para governos nacionais. Estas perdas prejudicam o desenvolvimento futuro da plataforma XO?

DC - Felizmente, outros governos, incluindo países com muito menos recursos do que o Brasil, estão seguindo adiante e isto nos dá a escala suficiente. Era nosso desejo que o Brasil continuasse a liderar o caminho para outros países, aproveitando as muitas pessoas de nível internacional que trabalham com tecnologia e educação para desenvolverem os melhores exemplos de aprendizagem no modelo 1:1 nas escolas, nos lares e nas comunidades. Portanto, o fato é que Brasil entraria com uma escala de atendimento bastante limitada, enquanto outros países avançam bem mais rápido na adoção. Vamos continuar na missão de utilizar laptops educacionais para todas as crianças, não apenas as mais privilegiadas, e continuar a trabalhar para baixar os preços para oferecer máquinas para mais crianças em todo o mundo.

JB - Com as mudanças do XO para a plataforma Intel, como já divulgado, terminarão as disputas mundiais que vemos hoje entre Classmate e XO e haverá maior reconhecimento do know-how que a OLPC possui neste modelo de educação?

DC - Continuaremos a colaborar com a Intel no desenvolvimento de novos computadores educacionais de baixo custo e alta-qualidade para crianças. Vamos também continuar a desenvolver nosso próprio produto para manter a pressão sobre a condução dos preços para baixo e para proporcionar mais opções. Vamos também continuar o desenvolvimento para melhorar e expandir os muitos avanços na tecnologia do XO (como a tela, a rede mesh, o baixo consumo de energia, o respeito ecológico, o software, etc.)

Sobre os autores

Jaime Balbino Gonçalves

Jaime Balbino Gonçalves da Silva é Learning Designer e consultor em automação, sistemas colaborativos de ensino e avaliação em EAD. Pedagogo e Técnico em Eletrônica. Trabalha na ProfSAT - TV Educativa via Satélite. Reside em Campinas, São Paulo.

jaimebalb (em) gmail (ponto) com

Marcos Silva Vieira

Professor desde 1986. Pedagogo, criou projetos de laboratórios de informática nas escolas. Coordena grupos de trabalho em educação inclusiva e uso de novas tecnologias. Faz parte de comunidades Linux voltadas a educação como Linux Educacional, Pandorga GNU/Linux dando apoio pedagógico. Palestrante e ministrante de cursos de formação em software livre educacional desde 2009. Participante e palestrante de eventos como Latinoware (foz do iguaçu), FISL (Porto Alegre), Freedom Day (novo hamburgo), Congresso Alagoano de Tecnologia de Informação - COALTI (edições em Alagoas e Pernambuco). Entusiasta de distribuições linux desde 2002.


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