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Política, planejamento, custos e alternativas à OLPC

Por Jaime Balbino

Data de Publicação: 08 de Janeiro de 2007

Os pontos levantados pelo engenheiro Carlos Rocha em um comentário à coluna de 03/12/06 são importantíssimos e resumem as preocupações tornadas públicas no seu primeiro artigo sobre o tema. Tentarei ir além

Parece óbvio em qualquer gestão pública que objetivos claros, planejamento a longo prazo e indicadores de desempenho sejam fundamentais em qualquer projeto de abrangência nacional. Infelizmente isto não é regra no Brasil. Nos faltam gestores competentes, pesquisadores que consigam ir além das dos projetos pilotos, fundos regulares para pesquisa, etc... Poucos projetos nacionais conseguiram se organizar suficientemente para fazer cumprir plenamente seus objetivos (incluo aí a radical automação das eleições brasileiras, que contou com a basilar participação do próprio Carlos Rocha).

O não-planejamento é um problema sério em educação. A falta de vontade política e envolvimento real dos diversos atores condena de antemão qualquer projeto, como um professor que "sabe" já no início do ano letivo quais alunos serão reprovados e começa por ignorá-los e estigmatizá-los.

O convencimento e posterior envolvimento é um "nó" em qualquer planejamento e não vejo como ele pode ser resolvido só com os instrumentos da administração direta já que isto é uma tradição do nosso Estado. As iniciativas sociais são um motor de inovação e convencimento mais ágil, inventando estratégias e outras ferramentas para driblar a burocracia, o despreparo e a má-vontade inerentes à macro-estrutura. Os membros do grupo de estudo criado pelo MEC parecem ter vislumbrado tais perspectivas ao tornar público o andamento dos seus trabalhos (caso raro na administração pública brasileira).

Ainda em referência às iniciativas oficiais do governo - a quem cabe implementar a idéia -, o mesmo grupo de estudos demonstra comungar das preocupações que afligem muitos de nós: objetivação, planejamento, viabilidade e construção de indicadores. É o que pode ser visto no primeiro relatório disponível, feito ainda em 2005.

Como muitas das falhas e limitações que são erroneamente atribuídas à idéia de se dar um computador para cada criança, não foi a OLPC que inventou a perversa burocracia brasileira. Pelo contrário, ela pode, de certa maneira, ajudar a otimizar a gestão estatal. Comecemos superando algumas visões míticas atribuídas à idéia e olhemos de frente os problemas reais que a tanto tempo aceitamos erroneamente como naturais e insuperáveis.

Há, sim, uma pedagogia por trás do XO. Ela pode ser encontrada no site do projeto, nos artigos e na tese do David Cavallo, no trabalho do Negroponte, do Papert (com seus erros e acertos), nas pesquisas de campo do MIT e em tantos outros colaboradores. Há também pesquisas independentes (as do Reino Unido e da União Européia são as melhores que conheço). A questão aqui talvez seja a maneira como normalmente aplicamos a tecnologia na educação. Abordagens exageradamente cientificistas ou técnicistas tendem a produzir resultados mensuráveis mas de pouca penetração na cultura escolar. Esta visão, muito baseada no modelo instrucionista norte-americano, costuma submeter a pedagogia à técnica sem um diálogo efetivo.

Este foi um fenômeno mundial que só recentemente começou de fato a mudar. O diálogo com mais qualidade começou a ocorrer com o desenvolvimento da Modelagem Educacional e a evolução do foco no planejamento do ensino, aplicando aí ferramentas mais avançadas de administração, gestão, automação, ontologias, computação e, é claro, pedagogia. Desde 1998 temos tido experiências inovadoras, frutos deste novo diálogo. Infelizmente esta revolução, que começou na Europa e no Canadá, ainda não chegou plenamente ao Brasil (e aos EUA). O trabalho da OLPC tem muito desta nova abordagem e percebo que é mesmo difícil, se não impossível, compreender suas inovações baseando-se somente nos antigos paradigmas.

R$ 26,4 bilhões de reais em 4 anos... De fato este é outro "nó" difícil de resolver. Mesmo assim é o menor valor conseguido até hoje por um projeto que objetiva não só a universalização, mas a "posse" do tempo e do espaço - é isto o que se quer quando se adquire uma máquina para si . Esta conta sempre foi bem maior, só servindo para fazer o sonho dos fabricante de hardware/software acerca de um público impossível de alcançar... com lucro.

A queda gradativa do preço durante os anos poderia diminuir este investimento em mais de 1/3. Estamos apenas no começo da criação de um novo mercado, com necessidades específicas, tecnologias devem ser criadas e barateadas, políticas públicas devem ser desenvolvidas, modelos de negócio devem ser inventados. Mas não é só isso...

Sejamos realistas, mesmo que este dinheiro existisse dificilmente seria entregue a uma único fornecedor. Não vejo na OLPC o interesse em ter o monopólio mundial do mercado de laptops para crianças. A OLPC apenas "descobriu" um novo nicho, deu-lhe um formato e venceu algumas limitações inerentes. Tudo o que vier depois depende mais de nossa capacidade de continuar inovando do que dela.

Talvez o projeto do computador de R$ 1 pudesse ser implementado em muito menos tempo (1 ano, talvez), garantindo a imediata universalização (é claro que ainda dependeríamos de boas conexões e de uma política social para as tarifas que das operadoras - problemas técnicos e legais que todos os projetos de inclusão universal enfrentam). Mas por que não usá-lo também se os recursos necessários de imediato são tão menores? O importante é haver sinergia: metodologias, softwares e objetivos devem ser intercambiáveis. Confesso que não vi no computador de R$ 1 a garantia de uma pedagogia progressista, como vejo na iniciativa da OLPC e na revolução silenciosa da União Européia. Talvez esta seja uma característica do projeto, pelo baixo custo e por estar "antenado" com a realidade das práticas dos nossos professores e secretarias de educação. Mas o diálogo construtivo entre as diversas iniciativas pode e deve acontecer.

Outras soluções nacionais, como a de ligar diversos terminais em um único computador e o reuso de máquinas antigas, são bons projetos e viáveis. Todos focam num determinado perfil de uso da máquina, semelhante a uma biblioteca, onde o conhecimento adquirido - e não o livro - pertence ao usuário. A idéia de um computador para cada criança trabalha com novas questões trazidas pelo paradigma da mobilidade em educação: posse, autonomia e total disponibilidade. É uma outra realidade que se tornou viável muito recentemente.

Estamos no começo. Não vejo como um erro estratégico realizar investimentos neste segmento, principalmente se ele se mostrar compatível com nossas diversas realidades. Não se trata de um atalho para uma ascensão primeiro-mundista, é um projeto que respeita as diferenças e utiliza elas como motor de colaboração e superação. Não duvido que o projeto do sr. Carlos e de tantos outros pesquisadores brasileiros também o seja, só digo que este também o é.

Sobre os autores

Jaime Balbino Gonçalves

Jaime Balbino Gonçalves da Silva é Learning Designer e consultor em automação, sistemas colaborativos de ensino e avaliação em EAD. Pedagogo e Técnico em Eletrônica. Trabalha na ProfSAT - TV Educativa via Satélite. Reside em Campinas, São Paulo.

jaimebalb (em) gmail (ponto) com

Marcos Silva Vieira

Professor desde 1986. Pedagogo, criou projetos de laboratórios de informática nas escolas. Coordena grupos de trabalho em educação inclusiva e uso de novas tecnologias. Faz parte de comunidades Linux voltadas a educação como Linux Educacional, Pandorga GNU/Linux dando apoio pedagógico. Palestrante e ministrante de cursos de formação em software livre educacional desde 2009. Participante e palestrante de eventos como Latinoware (foz do iguaçu), FISL (Porto Alegre), Freedom Day (novo hamburgo), Congresso Alagoano de Tecnologia de Informação - COALTI (edições em Alagoas e Pernambuco). Entusiasta de distribuições linux desde 2002.


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