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OLPC: um "laboratório" para cada criança

Por Jaime Balbino

Data de Publicação: 07 de Dezembro de 2006

Chegamos ao terceiro artigo da série sobre o computador para crianças XO - The Children Machine da fundação One Laptop Per Children, anteriormente conhecido como "laptop de US$ 100" e "2B1". Desta vez analisaremos sua característica mais revolucionária, ao meu ver: a capacidade de coletar dados do ambiente físico em tempo real, o que o transforma em um verdadeiro laboratório móvel com infinitas possibilidades educativas, profundamente impactantes na maneira tradicional como concebemos a relação do aluno com seu material didático e com a escola. Também analisaremos as demais interfaces disponíveis no modelo padrão.

A máquina de Turing: de fora para dentro... e de novo para fora

Todo sistema para processamento de informações é dependente de ao menos um sub-sistema que sirva à entrada dos dados que desejamos processar e outro que forneça a informação já processada necessariamente em um formato inteligível ou decifrável pelo ser humano. Esta é uma das regras da arquitetura dos computadores imaginada pelo matemático britânico Alan Turing na década de 30 e vem se mantendo inalterada desde sua formulação, apesar dos enormes avanços da informática neste curto período. Tudo o que for dito a seguir pode ser reduzido a esta arquitetura mínima e representa o ponto de partida e chegada de qualquer design educacional de sistemas de informação.

Nos computadores atuais a entrada de dados e demais pedidos ao sistema se dá normalmente através da dupla teclado e mouse (nos desktops); enquanto os resultados do processamento são fornecidos principalmente ao monitor e aos auto-falantes (voz e música, principalmente). Estes dois componentes de saída também dão o feedback visual e sonoro de tudo o que é escrito, apontado ou selecionado. Esta função de "suporte" à entrada de dados e às rotinas do sistema oferecido pelos sistemas operacionais modernos tende a não deixar transparecer o real papel destes componentes no processamento da informação.

É claro que a saída também pode se dar de outras maneiras, reais ou virtuais: impressora, arquivos binários, pacotes de dados numa rede... Bem como a entrada: comandos de voz num microfone, solicitações via rede, câmera... O importante aqui é perceber que a complexidade destes sistemas de entrada/saída é aparente, isto é, eles continuam representando apenas maneiras de "plantar" dados e "colher" as informações processadas pelas diversas rotinas internas (programas) da máquina.

Ao contrário da "filosofia" dos desktops, desenhar interfaces homem-máquina em sistemas móveis pode nos levar a caminhos bem diferentes, a começar por uma mudança significativa no foco: a complexidade deixa de ser medida pelo número de botões/funções no teclado e no mouse; pela quantidade de aparelhos que podem ser ligados ao mesmo tempo; pelo tamanho do monitor; pela velocidade do DVD-ROM; pela potência/design/pirotecnia das caixas de som e do amplificador e, principalmente, pelo número de programas, configurações e alertas que o sistema operacional pode fornecer.

A complexidade é parte da nossa modernidade e continua existindo no paradigma da mobilidade", porém se concentra em outros aspectos da usabilidade e ergonomia: o tempo de uso da bateria (que significa comodidade para o usuário); o tamanho do teclado e das teclas (que permite ao usuário realizar as tarefas mais básicas com rapidez); maneiras alternativas de apontar e selecionar ícones e textos na tela (o uso do mouse tradicional pode então não ser viável); a maneira como a informação pode ser vista (algumas vezes a cor pode não ser relevante), etc... Além de diversas outras questões igualmente importantes que influenciam indiretamente no conceito final, como tamanho, capacidade de armazenamento, resistência, apresentação, preço, etc, etc, etc...

Algumas características da interface, ainda, se confundem com outros conceitos de engenharia. Por exemplo, se é um aparelho móvel deve ser fácil conectá-lo a uma rede (sem fio, de preferência); também deve ser possível utilizá-lo em trânsito, se não escrevendo ao menos lendo um e-book em sua tela ou fazendo uma conversa em voz e/ou vídeo sem precisar abri-lo. Também é interessante que ele crie e administre sua própria rede quando próximo de outros aparelhos, para que o usuário não precise gastar tempo configurando seu equipamento ou abrindo conexões.

Novas maneiras de perceber a máquina

No projeto da OLPC novos dispositivos para entrada de dados ampliam a capacidade do aluno compreender o mundo através de atividades concretas. Não se trata, portanto de um conceito passivo ou puramente virtual de aprender "com o mundo", como ocorre na maioria das iniciativas educacionais apoiadas nas novas tecnologias. A mobilidade, que é padrão nos laptops e outros dispositivos móveis, permite trabalhar outros conceitos, conceber novas interfaces e assumir novas posturas frente a tecnologia e a sociedade.

O touchpad, por exemplo, além de servir para guiar o apontador do mouse, como num laptop comum, teve sua área ampliada ocupando toda a base do teclado, para permitir também o reconhecimento da escrita caligráfica. Este cuidado, que forçou os colaboradores a desenvolverem novos dispositivos e drivers, pode parecer um capricho desnecessário para alguns, já que entre as habilidades exigidas para o século XXI, talvez não incluam a capacidade de saber escrever à mão livre. No entanto, valorizar o domínio deste tipo de ferramenta é pedagogicamente importe para a criança, pois ela se reconhece naquilo que escreve e a escrita manual representa para ela a completa autonomia na produção e representação de suas idéias, isto é, sua Identidade.

O XO pode assumir duas configurações: aberto ele se parece com um laptop, fechado o monitor esconde o teclado e o touchpad, e ele pode ser manipulado como um tablet-PC ou e-book. Dois conjuntos de botões em forma de seta em ambas as laterais do monitor ajudam a navegação, como joysticks. Também o microfone interno, os alto-falantes e a câmera de vídeo continuam disponíveis, permitindo outras experiências sensoriais impossíveis com um desktop: videoconferência/VoIP, leitura de livros, fotografias e filmagens. Tudo isso em trânsito, dentro ou fora da escola. Com a rede Mesh, os alunos podem compartilhar fotos, filmes e conversas, além de armazenar tudo em um servidor local, sem necessidade da Internet. Este "servidor" pode ser um XO com mais memória em poder do professor ou de algum dos participantes do grupo.

Não vou me deter em relatar os maravilhosos trabalhos que podem ser desenvolvidos com fotografia e cinema, nem as novas percepções que tais atividades engendram, o espaço e a paciência do leitor não me permite apresentar tantas possibilidades em um único artigo. Prossigamos, então, com nossa foco cientificista de análise quantitativa do mundo.

Aprendendo a medir o mundo

E se, além disso tudo, o aparelho pudesse coletar informações sobre o meio físico em que está inserido, armazená-las e fornecer ferramentas de apoio para que o usuário/aluno trabalhe e chegue as suas próprias conclusões? E se aproveitássemos a feliz somatória de mobilidade, capacidade de processamento e flexibilidade de modos de entrada para construir um verdadeiro laboratório, capaz de ensinar e promover a análise quantitativa do mundo - um aspecto importantíssimo das ciências modernas, normalmente passada de forma acrítica, - a "cuspe e giz" - em nossas escolas?

A entrada para microfone externo do XO permite também a conexão direta de qualquer dispositivo sensível eletronicamente ao ambiente, isto é, que "traduza" variações ambientais em níveis proporcionais de variação de energia elétrica. Com isso é possível ligar sensores de temperatura, umidade, pressão, etc. Eles são simples de construir e sua matéria prima custa alguns poucos centavos de real, quando não está disponível livremente na natureza.

Também é possível ligar, por exemplo, motores de brinquedo sucateados ou manufaturados para que funcionem como geradores eólicos ou hídricos, para que se meça a velocidade do vento ou da água. Também é possível conectar pontas de prova, intercaladas ou não com circuitos elétricos simples, para medir diretamente tensão, amperagem, resistência, freqüência, etc.... Software específicos criados, modificados ou somente manipulados pelas crianças podem guardar estas informações e exibi-las como gráficos, listas ou tabelas. O XO pode até mesmo se tornar um multímetro ou osciloscópio!

A coleta de dados independe do ambiente escolar. Assim os alunos das mais diferentes idades e séries podem ter atividades relacionadas à construção e uso de sensores dentro de um programa amplo de conscientização científica e "compreensão crítica do mundo". As abordagens e expectativas para cada faixa etária, evidentemente, são distintas. Por exemplo, pode-se exigir mais formalidade científica de um aluno da 8ª série; enquanto conceitos básicos de quantidade, gráficos e margem de erro podem ser passadas tranqüilamente, de maneira lúdica, para alunos dos primeiros anos.

Para a escola, entre outras coisas, há um ganho significativo na avaliação formal, pois ela pode se tornar mais complexa, avaliando tanto o que o aluno aprendeu quanto como o aluno aprende. A escola também pode ampliar seu conteúdo, tornando-o mais variado e complexo, pois praticamente todo o currículo tradicional passa a ser trabalhado transversalmente e interdisciplinarmente. Abaixo listo algumas habilidades naturalmente desenvolvidas neste contexto experimental:

  • O desenvolvimento da linguagem, principalmente da escrita.
  • Não raro as crianças tendem a apresentar textos mais significativos e a construir ferramentas concretas inovadoras.
  • O pensamento abstrato, a resolução de problemas, a formulação de hipóteses, a capacidade de teorizar e argumentar.
  • O trabalho em grupo, a construção e manutenção de redes de relacionamento e interesse.
  • A apropriação e resignificação destas habilidades em outros campos, como artes, literatura, convívio social, lazer, trabalho, etc...

A mesma criança, um novo aluno

Não se trata de fornecer kits instrucionais aos professores e alunos, a exemplo do que ocorre no sistema de ensino fundamental norte-americano. As próprias crianças podem montar os sensores; aprender sobre suas limitações e usos - "calibrando-os"; para então colher os dados, interpretá-los, compará-los com outras fontes (os textos didáticos, os colegas de turma, o professor, a Internet ou até seus pais). No final as crianças sistematizam suas anotações e a vivência adquirida em textos individuais e/ou grupais que podem ser publicados na Internet - como fazemos com nossas próprias publicações jornalísticas e científicas.

Uma única experiência completa deste tipo já implica em ganhos enormes para o aluno. Há a manipulação do mundo físico, a construções de ferramentas para interferir e compreender o meio-ambiente, a sistematização de resultados, etc... Mesmo que o trabalho gerado não seja científico, mas artístico, por exemplo, a análise crítica e o processo formador estarão ali presentes.

Por exemplo, normalmente ensinamos a importância da reciclagem do lixo para o bem estar da sociedade através de exposições (aulas), exemplos e atividades comunitárias. Poderíamos ir muito além deste processo de convencimento para a construção de um "senso-comum" se utilizarmos experiências concretas de medição, simulação e construção de aparelhos, pois a criança construiria sua opinião a partir das suas próprias conclusões, partindo da sua realidade; somando seu conhecimento aos textos e exemplos escolhidos pela escola, ao material midiático que ela mesma pesquisa e às experiências, discussões e atividades orientadas que realiza. O conhecimento adquirido desta forma não é "senso-comum", pois possui base social e crítica. A base científica que ela utilizou compõem outro plano: serviu de "tutor", guiando-a na escolha dos argumentos e hipóteses que lhe permitiram construir sua opinião.

É curioso trabalhar desta forma, pois o debate entre ensino tradicional e vertentes progressistas, e entre conhecimento adquirido e construído, é inevitável. Por exemplo, ao final de um processo deste tipo uma criança poderia levantar a tese de que não é ambientalmente sustentável utilizarmos garrafas de plástico para armazenamento de bebidas, mesmo que isso seja economicamente justificável e permita a subsistência de uma importante categoria de trabalhadores informais. Para apoiar sua tese, esta criança poderia utilizar dados reais sobre produção de garrafas de plástico e cruzar com a capacidade estimada de reciclagem. Também poderia contar o número de usinas de reciclagem particulares, públicas e cooperadas para concluir que elas não conseguem retirar da natureza uma parte significativa do que é descartado. Para finalizar, esta criança poderia consultar a experiência de outros países reconhecidos como ambientalmente responsáveis, constatando que neles já há muito tempo só se utilizam recipientes de vidro para armazenamento de bebida.

Diante do orgulho nacional instituído de sermos o maior reciclador de latas de alumínio e, provavelmente, de garrafas de plástico do mundo, como ficará o coração desta criança?

Não é qualquer educação que muda uma sociedade, e replicar o status quo não é ensinar. A mudança de postura frente ao conhecimento é fundamental e permite mudanças mais significas na maneira como ensinamos, aprendemos, avaliamos e utilizamos o material didático e a tecnologia. Diante da possibilidade de medir o mundo, oferecida pelo laptop da OLPC, a escola tem duas alternativas: permitir que o laboratório ocorra com todas as suas conseqüências, deixando que o conceito "contamine" outros aspectos do seu currículo/projeto pedagógico; ou negar esta possibilidade aos seus alunos, ignorando todo o seu potencial e transformando o laptop num caderno eletrônico ou, pior, num material instrucional paradidático - como é o conceito e parece ser o destino dos seus concorrentes diretos, como o Classmate da Intel.

Paulo Freire, nosso educador maior, morreu ignorado pela grande mídia, que nunca quis respaldar sua pedagogia emancipadora. O que dizer sobre o destino de um projeto que universaliza o seu legado?

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Sobre os autores

Jaime Balbino Gonçalves

Jaime Balbino Gonçalves da Silva é Learning Designer e consultor em automação, sistemas colaborativos de ensino e avaliação em EAD. Pedagogo e Técnico em Eletrônica. Trabalha na ProfSAT - TV Educativa via Satélite. Reside em Campinas, São Paulo.

jaimebalb (em) gmail (ponto) com

Marcos Silva Vieira

Professor desde 1986. Pedagogo, criou projetos de laboratórios de informática nas escolas. Coordena grupos de trabalho em educação inclusiva e uso de novas tecnologias. Faz parte de comunidades Linux voltadas a educação como Linux Educacional, Pandorga GNU/Linux dando apoio pedagógico. Palestrante e ministrante de cursos de formação em software livre educacional desde 2009. Participante e palestrante de eventos como Latinoware (foz do iguaçu), FISL (Porto Alegre), Freedom Day (novo hamburgo), Congresso Alagoano de Tecnologia de Informação - COALTI (edições em Alagoas e Pernambuco). Entusiasta de distribuições linux desde 2002.


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