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O Modelo Pedagógico do "Laptop de US$ 100"

Por Jaime Balbino

Data de Publicação: 03 de Dezembro de 2006

Este é o segundo texto da série de artigos iniciada em setembro sobre o 2B1 da ONG One Laptop Per Children (OLPC). Desta vez nos concentraremos nos aspectos puramente pedagógicos, fazendo uma análise das bases teóricas do projeto e de algumas das ferramentas de apoio ao ensino em desenvolvimento. Finalizamos indicando outras contribuições e iniciativas em software livre que podem ser agregadas ao projeto.

Um exemplo de diálogo entre tecnologia e educação

O matemático sul-africano Seymour Papert é conhecido dos professores e pesquisadores em educação principalmente por ter criado o LOGO, uma linguagem de programação para crianças que permite trabalhar com objetos concretos no computador. Valendo-se principalmente da metáfora de uma tartaruga que pode se movimentar livremente em um plano (ou espaço), as crianças organizam e resolvem problemas, ou simplesmente criam situações lógicas, matemáticas e artísticas. A única exigência é que o pequeno programador siga duas regras óbvias em programação: informar explicitamente todos os passos necessários para se alcançar o objetivo e aceitar o erro como parte do processo que leva à resolução do problema. Isto significa na prática planejar minimamente o que se quer fazer, antevendo o resultado desejado; além de levantar, selecionar e experimentar hipóteses, modificando-as ou substituindo-as quando necessário.

O grande mérito de Papert, no entanto, não está exatamente na criação de uma linguagem de programação para uso em sala-de-aula. Numa época em que a principal contribuição dos computadores para educação eram as chamadas "máquinas de ensinar", baseadas na vertente educacional comportamentalista/behaviorista - algo parecido com o estudo dirigido, no qual o aluno segue um roteiro prévio e é estimulado a seguir em frente à medida que dá as respostas corretas -; Papert conseguiu interpretar de maneira satisfatória os conceitos da psicologia cognitiva de Piaget e do construtivismo num modelo semântico que teve como um dos resultados mais notáveis a própria linguagem LOGO. Mas há outras conseqüências do seu modelo: o próprio discurso agregado ao LOGO, as terminologias e conceitos difundidos independentemente da linguagem e a maneira como a própria existência de uma linguagem de programação pedagógica afetou a maneira como pensamos os usos possíveis do computador em educação.

Por isso, normalmente refiro-me ao LOGO como meta-linguagem, para enfatizar esta estrutura semântica/discursiva que vai além da linguagem de programação - e que linguagem de programação nenhuma conseguiria abranger.

Mas o LOGO não é uma simplificação de alguma linguagem de programação "adulta". Papert utilizou os saberes das Ciências da Computação para dar forma a sua própria concepção de construtivismo. Foi a primeira vez que esta aproximação ocorreu com sucesso na Educação e durante muito tempo também foi a única experiência significativa neste sentido. Mesmo limitada a uma parte do modelo de desenvolvimento piagetiano (o conceito de pensamento lógico-formal estruturado pela linguagem), ela auxilia satisfatoriamente o desenvolvimento cognitivo quando dentro de uma metodologia educacional mais ampla e bem estruturada.

Um modelo prático

Toda a introdução que fiz sobre o LOGO foi para demonstrar o quanto é possível avançar em educação quando há diálogo entre os diferentes campos de conhecimento, sem que um se submeta ou seja simplesmente instrumentalizado pelo outro. O construtivismo não ficou mais "matematizado" com o LOGO, mas esta linguagem nos ensinou muito acerca de como o trabalho em grupo beneficia o aprendizado. São coisas impossíveis de se prever porque não se trata de uma simples soma de saberes computacionais e pedagógicos, mas de algo novo, que surge através das oportunidades criadas no diálogo.

O construcionismo que está na base do modelo pedagógico do 2B1 é isso: uma vertente da educação preocupada em utilizar objetos concretos para estabelecer relações e desenvolver projetos práticos, onde a criança descobre e sistematiza seu próprio conhecimento (com a ajuda do professor, é claro). Por "objeto concreto" entenda-se qualquer coisa que possa ter significado para a criança, pode ser algo físico ou tão abstrato como a metáfora de uma tartaruga, um comando de programação ou a língua materna.

A idéia é trabalhar a partir da experiência da própria criança e dentro da sua realidade. Não se trata de colher exemplos locais para em seguida inseri-los num contexto curricular padrão, o 2B1 pretende ir além ao remontar o currículo escolar a partir da realidade local num ambiente interdisciplinar. O laptop pode auxiliar o corpo docente no processo de reconhecimento dos contextos sociais para esta convergência entre o currículo e a comunidade, além de também incentivar este trabalho interdisciplinar na escola. Pesquisas com as crianças, debates com a comunidade, apresentação de trabalhos em seminários, ou mesmo a simples troca de mensagens entre todos os atores envolvidos tendem a contribuir para um currículo mais dinâmico e para este tipo de aproximação, tão desejada pelos adeptos de uma pedagogia que respeite as diversidades e que não se submeta à elitização do conhecimento.

O construcionismo percebeu na prática o quanto a colaboração potencializa o processo de ensino-aprendizagem e a incorporou em seu método. No laptop da OLPC a colaboração é a principal ferramenta, sendo até mais importante que o acesso à Internet. A rede sem-fio Mesh faz com que todos os computadores fiquem ligados em rede durante a aula sem necessidade de equipamento adicional (um servidor pode ser necessário para acesso a dados comuns, como livros e arquivos de mídia). Mesmo fora da escola, a rede pode ser mantida se as crianças morarem próximas, pois cada máquina funciona como um hub que "passa" a conexão para a frente. O alcance da rede Mesh e sua velocidade dependem exclusivamente do número de computadores e das "rotas" possíveis para o tráfego das informações. Mesmo desligados, os laptops podem participar deste "mutirão" para expansão da conexão.

Em sua interface padrão, disponível assim que o laptop é ligado, é possível escolher entre trabalhar com todo o grupo, somente com alguns colegas, ou sozinho. As ferramentas de comunicação estão sempre disponíveis, seja o navegador para Internet, o mensageiro eletrônico, o bate-papo ou a videoconferência por VoIP. É claro que dentro da sala de aula pode ser preferível a conversa "ao vivo", com o computador sendo usado apenas para registro de anotações, leitura das anotações dos colegas ou de textos da aula. Porém, em trabalhos em grupo e na montagem de textos colaborativos pode sim ser interessante estimular o uso do mensageiro num processo de anotação dinâmica para facilitar a sistematização das discussões, incrementar o processo de avaliação individual e mesmo diminuir o barulho e disciplinar a turma.

Outras contribuições

Particularmente me considero adepto de outra vertente na educação: a sócio-histórica, iniciada pelo russo Vygotsky, entre outros. Nela o conhecimento possui fortes bases sociais e está profundamente ligado ao desenvolvimento das estruturas da linguagem. O modelo sócio-histórico tem, portanto, a colaboração e o diálogo como elementos intrínsecos do processo de aprendizagem, o que permite construir práticas de ensino e avaliação em grupo mais coerentes. Isto é, que aproveitem a dinâmica aparentemente caótica de um processo de construção colaborativa do conhecimento.

Uma das técnicas, como a utilizada num processo chamado inquérito progressivo (progressive inquerity), considera o conhecimento como apropriação de um grupo de indivíduos culturalmente ligados e explora elementos de investigação científica e características particulares da linguagem para auxiliar na sistematização dos trabalhos, disciplinando-o.

Assim, todas as falas feitas pelos alunos devem ser categorizadas (comentário, hipótese, tese, afirmação, etc...), os próprios participantes devem reconhecer que tipo de argumento estão usando. O objetivo é que na etapa final de sistematização (sempre escrita), o material produzido represente a visão consensual do grupo, tanto nos fatos comprovados, como nas hipóteses consideradas (1).

No Brasil, os ideais construtivistas e, mais recentemente, os sócio-históricos estão bastante enraizados nas políticas públicas e na formação dos educadores (2), mesmo que ainda não componham a maioria das práticas em sala-de-aula. Em tese, isto facilitaria a implementação de projetos como o da OLPC. O nosso histórico de políticas públicas em educação mostra que a ação local tem peso definitivo em qualquer processo de mudança, daí a importância da valorização do engajamento da própria escola na estruturação do seu currículo. A tecnologia precisa ser apropriada pela comunidade para melhor ser utilizada. Ou, em outras palavras, é necessário que a própria escola construa o conhecimento em torno da tecnologia para que ela seja de fato incorporada em suas práticas.

No fundo... no fundo... isto significa coerência metodológica desde o planejamento do ensino até as tarefas dos alunos dentro da sala-de-aula.

Concluindo

Então você ainda não entendeu direito o que é construcionismo e sócio-historicismo? Acha a pesquisa na web uma boa idéia, mas ainda não faz idéia de como implementá-la? Não sabe o que é inquérito progressivo e outros métodos baseados na resolução de problemas que podem ser dirigidos, livres ou, ainda, um pouco de ambos? Ainda mede a participação de seus alunos de EAD pelo número de postagens nos fóruns virtuais sem levar muito em conta a relevância do conteúdo das mensagens, fazendo uma análise subjetiva desta participação? Acha também que é possível uma Educação a Distância de qualidade baseada na oferta de roteiros de leitura aos alunos com posterior teste (presencial) sobre o que foi lido? Não consegue imaginar uma avaliação quantitativa eficaz num trabalho em grupo? Ainda confunde Conhecimento com Conteúdo/Currículo, debatendo limites para as contribuições do aluno em sala de aula (real ou virtual)? Acha que o saber é aquilo que já foi sistematizado pela sociedade e que deve ser transferido ao aluno, preferencialmente numa linguagem científica? Ainda cisma em confundir a Educação com relações simplórias de Comunicação? Em fim, seus métodos na verdade são instrucionais e não construtivistas ou sócio-históricos, mesmo que você não tenha plena certeza do significado de cada um destes termos?

A pedagogia por traz do 2B1 não foi inventada agora pela OLPC, algumas de suas partes tem mais de 50 anos, outras são muito recentes - mas nenhuma delas é impositiva. A grande questão é que o laptop em si foi desenvolvido para trabalhar da melhor forma o conceito de construção colaborativa do conhecimento, presente nas mais progressistas tendências educacionais de hoje. Se você ainda tem dúvidas sobre como o 2B1 pode mudar positivamente a realidade escolar, comece a esclarecê-las respondendo as perguntas do parágrafo anterior. Os links abaixo o ajudarão, com certeza.

Notas

(1) Há algumas semelhanças práticas entre o inquérito progressivo e o Webquest, um modelo de construção do conhecimento baseado em pesquisa que está sendo adaptado ao 2B1, mas suas bases teóricas são bem diferentes. Em outro artigo pretendo analisá-los mais detidamente, minha intenção neste tópico foi dar um exemplo de prática ainda não considerada pela OLPC.

(2) Muitas pessoas, mesmo dentro da academia, confundem a teoria sócio-histórica com o construtivismo. Chegam mesmo a considerar a primeira como "complemento" da segunda, pois daria um "caráter mais social" ao modelo original de Piaget.

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