você está aqui: Home  → Colunistas  →  Educação e Tecnologia

Um balanço do e-learning no Brasil recente

Por Jaime Balbino

Data de Publicação: 26 de Outubro de 2006

Nos últimos anos o ensino baseado nas TICs avançou pouco, acompanhando uma tendência que já dura décadas. Este artigo identifica e faz uma análise pessoal destes pequenos avanços, tidos pelo autor não como elementos de frustração, mas como indicativos dos desafios que devem ser enfrentados no curto prazo. Na democracia não se pode superestimar as políticas e ações do governo de ocasião, sempre haverá mais atores sociais diretamente responsáveis pelos caminhos tomados e suas conseqüências. No caso das ações para o desenvolvimento do e-learning nacional, também devem se solidarizar com os resultados os desenvolvedores de tecnologia (proprietária e livre), empreendedores, pesquisadores e profissionais da educação.

Se foram poucas as políticas, a postura do Estado frente ao e-learning foi bem mais pragmática que a de governos anteriores. Houve foco, e este não foi técnico mas de inclusão social. Se hoje pensamos mais a questão do acesso universal às tecnologias e sua relação com a cidadania, devemos parte disso às demandas governamentais criadas.

Mas, haveria mesmo o que comemorar se em cada ação estatal efetiva é possível apontar equívocos, contradições, brigas políticas e/ou problemas de gestão? A meu ver tais discordâncias não invalidam os atos em si e nem encerram os debates gerados na sociedade. Por isso houve conquistas reais, mesmo que muitos de nós não as encaremos da mesma forma.

O Estado criou demandas, algumas ele mesmo pôde minimamente suprir, através de programas, como o "computador para todos"; a abertura de linhas de crédito e as isenções de impostos para produtos de informática e a preferência pelo software livre em diversas iniciativas estatais (apesar desta decisão estar focada quase que exclusivamente em aspectos econômicos). A verba do FUST, ao que tudo indica, continua parada em meio as disputas dos lobistas de empresas que tem na prestação de serviços ao governo seu grande filão.

Diversos ministérios se envolveram com a inclusão digital: Casa Civil, Comunicações, Ciência e Tecnologia, Cultura e Educação. Se as iniciativas não estavam articuladas num primeiro momento e até faziam disputas fratricidas por recursos e prestígio, o que sobreviveu ao embate político teve chance de amadurecer e se viabilizar, como o GESAC, que engloba governo eletrônico e inclusão digital através de satélite bidirecional.

Assim também foi com a TV Digital. Onde houve esforços para uma ampla nacionalização de tecnologias e processos (em grande parte abortado); a manutenção da tradição popular e integradora da radiodifusão; e iniciativas para agregar novas e inovadoras características para o cumprimento dos novos papéis inclusivos desejados pelo governo. Esta tendência também é identificada na "queda-de-braço" em torno da regulamentação do WiMax, onde as visões de liberalização incondicional do mercado e de um novo intervencionismo estatal ainda disputam, tentando igualar ou diferenciar a oferta de serviços ao cidadão e a inclusão social.

No âmbito da EAD, criou-se a Universidade Aberta do Brasil – uma reedição dos consórcios universitários para oferta de cursos superiores. Se esta não é uma Universidade Aberta "strictu sensu" (nos moldes do que há na Inglaterra e Espanha, por exemplo), esta iniciativa aponta duas constatações oficiais complementares para o setor: O Estado não possui um método para EAD de ensino superior "homologado" e - por isso mesmo - estimula o desenvolvimento de sistemas de ensino e práticas através de parcerias multi-regionais autônomas.

Há reclamações justificadas quanto a esta prática. Particularmente vejo como positivo o governo finalmente assumir uma postura quanto a EAD no ensino superior, mesmo que seja a de não haver uma posição oficial, ainda. Isto é melhor que a simples adoção de métodos e procedimentos através de uma nova Universidade Virtual monolítica, que poderia levar os demais atores públicos e privados a aceitar acriticamente tal estrutura como sendo a oficial. Na minha opinião, se o nosso gestor das leis ainda não está convencido, que não se precipite e mantenha o campo livre para que haja desenvolvimento.

Tal qual em outros governos, pouco avançamos em termos de legislação para EAD. No entanto, percebo que também evoluímos muito pouco nosso discurso frente aos questionamentos do MEC e de seus conselhos. A expressão máxima desse impasse é a estagnação nos processos de regulamentações (como no caso da pós-graduação) e nas propostas de leis.

Alguns de nós ainda tentam provar as possibilidades da EAD. As ações estatais nos últimos anos demonstram que o governo já está convencido da viabilidade do casamento das Novas Tecnologias com a Educação. O que ele busca agora são práticas que satisfaçam suas ambições. Se mantido o atual rumo político, ficará cada vez mais difícil vender só um discurso, sem uma prática convincente. Como exemplo máximo do foco inclusivo e do pragmatismo adotado por este governo em relação à tecnologia está a respaldo imediatamente dado ao projeto do Laptop de US$100, da OLPC, cativante pelas respostas que dá às questões de inclusão valorizadas por uma parte significativa do governo.

A meu ver, já no próximo ano sentiremos os impactos destas aparentemente tímidas iniciativas. O mercado de e-learning se expandirá e novos negócios surgirão, principalmente onde o governo diretamente interviu. A estagnação aparente em alguns nichos, por falta de regulamentação e excesso de controle, deve ser vista como demanda e oportunidade, e não como problema. A se manter a atual política, não teremos uma liberalização do e-learning, como querem alguns, mas isto não servirá de freio ao crescimento do setor e pode até, de certa maneira, garantir uma maior qualidade dos produtos (aqui entendida principalmente como satisfação do aluno).

Sobre os autores

Jaime Balbino Gonçalves

Jaime Balbino Gonçalves da Silva é Learning Designer e consultor em automação, sistemas colaborativos de ensino e avaliação em EAD. Pedagogo e Técnico em Eletrônica. Trabalha na ProfSAT - TV Educativa via Satélite. Reside em Campinas, São Paulo.

jaimebalb (em) gmail (ponto) com

Marcos Silva Vieira

Professor desde 1986. Pedagogo, criou projetos de laboratórios de informática nas escolas. Coordena grupos de trabalho em educação inclusiva e uso de novas tecnologias. Faz parte de comunidades Linux voltadas a educação como Linux Educacional, Pandorga GNU/Linux dando apoio pedagógico. Palestrante e ministrante de cursos de formação em software livre educacional desde 2009. Participante e palestrante de eventos como Latinoware (foz do iguaçu), FISL (Porto Alegre), Freedom Day (novo hamburgo), Congresso Alagoano de Tecnologia de Informação - COALTI (edições em Alagoas e Pernambuco). Entusiasta de distribuições linux desde 2002.


Para se manter atualizado sobre as novidades desta coluna, consulte sempre o newsfeed RSS

Educação e Tecnologia: NewsFeed RSS

Para saber mais sobre RSS, leia o artigo O Padrão RSS - A luz no fim do túnel.

Recomende este artigo nas redes sociais

 

 

Veja a relação completa dos artigos desta coluna