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Em EAD, faça as perguntas certas

Por Jaime Balbino

Data de Publicação: 20 de Outubro de 2006

A Educação a Distância baseada nas TICs trouxe, especialmente na última década, novos paradigmas para os processos de ensino-aprendizagem, apontando novas necessidades e novas relações do aluno com o conhecimento. No entanto, por vezes nos empolgamos tanto com as mudanças possíveis no ensino presencial tradicional, que sequer lembramos que mais cedo ou mais tarde tais dilemas levantados pela EAD levarão a outros paradigmas que porão em cheque a maneira como fazemos nossa EAD de hoje. Não vivemos num "fim da história" (1) e a EAD possui poucos clássicos reais, e ainda menos sobreviverá aos embates futuros.

Quando se tem por instrumento de trabalho a tecnologia, a constante obsolescência é a realidade mais sensível. Porém reconhecer para onde caminham as tendências tecnológicas é a tarefa mais fácil frente ao desafio de decidir como utilizar os meios e com quais fins. Aí residem nossos novos paradigmas, clamando por serem encontrados. Identificá-los é estar disposto a aplicar novos olhares, "matar" conceitos e práticas já enraizadas e, como numa parábola ilustrada por Laerte, "subir no poste", para poder ver de outro ângulo (2).

Bastaria, talvez, perguntar. Mas - onde toda indução falha - só quando já temos as respostas é que sabemos quais são as perguntas certas. Caso contrário, os nossos questionamentos parecerão esdrúxulos ou excêntricos. Neste momento, não podemos nos dar ao luxo de transformar nossos conhecimentos e práticas em dogmas universais. Não cabe perguntar qual módulo novo devo implementar em meu software de gerenciamento de ensino para suprir uma necessidade aparente. Isto é dogmático. O momento é de saber qual é o prazo que me dou para trocar meus softwares e revisar meus processos - aumentando a complexidade do meu conhecimento com vista a atender necessidades que talvez nem saiba ainda que existam. Estas situações são as geradoras de perguntas paradigmáticas, que efetivamente revolucionam o ensino e contribuem para o aumento de sua qualidade.

A seguir, sob o signo da excentricidade, levanto alguns paradigmas a partir de perguntas que me fiz e que também costumo fazer aos textos que leio e às pessoas que também trabalham com EAD.

Professores que elaboram conteúdos, organizam cursos e/ou ministram aulas a distância, não raro sentem uma melhora significativa em seu desempenho nos cursos presenciais.

1. Sabemos quais mecanismos e sistemas são estes e como eles se embutem na metodologia de elaboração e aplicação de cursos. Por que não os apontamos abertamente e os valorizamos mais que o método em si?

2. Por que há dicotomia entre a metodologia de elaboração e aplicação de cursos a distância e de cursos presenciais?

3. Por que não permitimos aos alunos vivenciarem de fato esta mesma experiência de auto-reflexão, sistematização e exposição pública motivada?

4. De que maneira poderíamos dar acesso pleno aos alunos para que possam usufruir dos mesmos meios de criação dados ao professor (ou aqueles que eles poderiam/deveriam estar utilizando)?

Para muitos de nós já foi decretado o fim da Pedagogia, dada sua suposta incapacidade de tratar a interação na tecnologia ou por ser tão dedicada ao universo infantil. Em seu lugar (e às vezes sobre suas bases), deve-se erguer uma nova catedral do saber que abrigará a ciência que será mais condizente com as necessidades de nossa contemporaneidade.

5. Se ciências morreram ou se entregaram à tutela de outrem, não parece ser este o caso da Pedagogia, ainda. Não seria da própria natureza pedagógica – e de todas as outras ciências – buscar interagir com outros campos para superar seus próprios paradigmas? E isto não significaria perda de identidade mas, pelo contrário, seu fortalecimento?

6. Que contribuições a mais podem nos dar os saberes das ciências da computação, administração, matemática, dramaturgia/artes, automação, lingüística, ontologia e semiótica, só para citar os mais óbvios?

Em EAD não há subterfúgios. Enquanto no ensino presencial podemos contar com nossa sensibilidade para corrigir rotas ou para melhor atender necessidades individuais., o acompanhamento a distância exige mais disciplina do professor e da equipe, inclusive para que o aluno não se sinta frustrado e desmotivado.

7. Quão importante é, de fato, a preparação da equipe de suporte?

8. Currículo, avaliação, portfolio, perfis, níveis de acompanhamento, etc... como utilizá-los num ambiente virtual de maneira cada vez mais eficiente?

9. Que novas competências preciso desenvolver em meus alunos (e na minha equipe), de maneira a lhes garantir seu desenvolvimento futuro, independente do curso que estão fazendo?

10. Como criar ambientes que sejam de fato colaborativos e quantificáveis?

11. Como auditar meus processos?

Construir uma estrutura de EAD com qualidade e massificada está bem longe de ser óbvio. Pequenos grupos são bem fáceis de gerenciar, porém, grandes grupos trazem um aumento exponencial do trabalho, além de necessitarem de novas rotinas para demandas que antes passavam desapercebidas.

12. Como gerir minha escalabilidade?

13. Como fazer com que a automação e o controle convivam em harmonia com a criatividade e a inovação características das comunidades de prática?

"O MEC não gosta de EAD", esta deve ser a frase mais fácil para se iniciar uma conversa com quem trabalham com ensino superior a distância no Brasil.

14. Não tenho certeza se o MEC, o Conselho Nacional de Educação, a Capes e outros tantos organismos decisórios tem obrigação de gostar da EAD, já que há tantos compromissos outros assumidos com a qualidade no ensino presencial. Antes de nos darmos razão, criticando as políticas do ministério, já não seria o momento de pensarmos com a "cabeça do inimigo" perguntando porque nossos argumentos não são aceitos? Será que eles estão tão bem formulados quanto pensamos?

15. Vejo o MEC como uma "velha e sábia matriarca" que precisa ser convencida das qualidades dos netos para que finalmente libere o acesso à herança. O MEC já sabe as qualidades que aprecia, é tão difícil assim cumprir seus desejos num curso 100% virtual? Isto seria tão ruim para a EAD brasileira?

16. Não nos faltam novos paradigmas para satisfazer ao MEC e, mais ainda, a nós mesmos?

Já somos todos anacrônicos, porque não aprendemos o suficiente para mudar o futuro com a rapidez necessária, a tecnologia nos guia mas não a realimentamos com destreza. Se estamos satisfeitos e se o que temos hoje representa de fato nosso "estado da arte" em EAD é porque alguma coisa ainda nos falta. Este é mais um dos paradigmas que precisam da pergunta correta para se revelar.

Notas: (1) Como numa vitória do liberalismo sobre todas as demais correntes teóricas sociais, sobrepujando todos os conflitos ideológicos. Tal como previu (e mais tarde reviu) o economista Francis Fukuyama para a nossa momento histórico.

(2) http://www.laerte.com.br. Infelizmente não encontrei a história que cito, mas o site vale a pena de qualquer jeito.

Sobre os autores

Jaime Balbino Gonçalves

Jaime Balbino Gonçalves da Silva é Learning Designer e consultor em automação, sistemas colaborativos de ensino e avaliação em EAD. Pedagogo e Técnico em Eletrônica. Trabalha na ProfSAT - TV Educativa via Satélite. Reside em Campinas, São Paulo.

jaimebalb (em) gmail (ponto) com

Marcos Silva Vieira

Professor desde 1986. Pedagogo, criou projetos de laboratórios de informática nas escolas. Coordena grupos de trabalho em educação inclusiva e uso de novas tecnologias. Faz parte de comunidades Linux voltadas a educação como Linux Educacional, Pandorga GNU/Linux dando apoio pedagógico. Palestrante e ministrante de cursos de formação em software livre educacional desde 2009. Participante e palestrante de eventos como Latinoware (foz do iguaçu), FISL (Porto Alegre), Freedom Day (novo hamburgo), Congresso Alagoano de Tecnologia de Informação - COALTI (edições em Alagoas e Pernambuco). Entusiasta de distribuições linux desde 2002.


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