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Por Jaime Balbino
Data de Publicação: 05 de Outubro de 2006
Quem já trabalhou com educação já percebeu a importância de uma boa organização em todas as etapas de criação de um curso. Para estes, pensar em incrementar o planejamento do ensino utilizando-se - ao mesmo tempo - de ferramentas da administração, da lingüística, da matemática e das ciências da computação, pode não parecer um exagero teórico tão grande. Pois é exatamente isto que o mais recente padrão internacional IMS-LD, vulgo Learning Design, faz, sem perder a compatibilidade com tudo o que foi feito antes (o padrão ADL-SCORM, por exemplo).
Nesta nova seqüência de artigos utilizaremos um framework básico para apresentar sua estrutura conceitual. Por se tratar de uma introdução, não aprofundaremos conceitos, nem traçaremos comparações ou referências a originais; daí, aspectos semelhantes a outros padrões educacionais, ou mesmo a outros campos do conhecimento, provavelmente não será mera coincidência. O IMS-LD pode ser visto de diversas maneiras, uma delas é como um padrão que integra as "boas práticas" do planejamento e da organização do ensino.
Pensar, produzir, aplicar e avaliar (1) um curso em EAD não é um trabalho solitário. É trabalho ordenado em equipe e deve ser considerado ponto chave para a criação e controle de cursos de qualidade. O princípio é simples e ao mesmo tempo inovador: o conhecimento é uma conseqüência cultural e social, devendo então ser desenvolvido através do diálogo. Para fazer cursos que visem à construção do conhecimento pelos alunos, devemos incorporar este mesmo objetivo ao processo de elaboração. Quanto à técnica: a distância é um elemento que deve ser superado menos com tecnologia e muito mais com trabalho planejado, com coordenação e com ações que viabilizem um ensino eficiente. A vertente tecnológica deve ser vista como meio para viabilizar tal eficiência, não sendo a responsável pela motivação, permanência e aprendizado do aluno. Pelo contrário, um instrumental tecnológico mal aplicado frustra e desperdiça energias, tanto do aluno quanto da equipe de EAD.
O planejamento do ensino (learning design (2) é sem sombra de dúvida o responsável pelo sucesso de um curso. Ele é perene e "sobrevive" a qualquer tecnologia ou método. Isto é, um bom planejamento do ensino deve representar os caminhos da aprendizagem para se alcançar os objetivos do curso de forma tão clara que permita à equipe e ao professor lançar mão das mais diversas estratégias e tecnologias na sua aplicação. Planejamento e pedagogia, aqui, são a mesma coisa, já que um é a viabilização do outro. A pedagogia nos fornece as bases para pensar a aprendizagem, os papeis desempenhados por cada um num curso e a melhor forma de transformar conhecimento em conteúdo sistêmico. O planejamento organiza e nos fornece o modelo teórico do curso que irá permitir a melhor aplicação possível do conteúdo no mundo real, qualquer que seja ele. Ambos se realimentam e se confundem.
Temos aqui então o nosso objetivo: sistematizar e construir cursos colaborativamente a partir de conhecimentos e estratégias contemporâneas, juntando pedagogia e organização de sistemas para modelar o aprendizado. Esse modelo de que falamos é de certa maneira genérico e completo, interpretando não somente o conhecimento a ser passado em sala de aula (ou qualquer outro meio), mas também incluindo em sua estratégia roteiros, cenários e papeis (3) a serem desempenhados por educadores, aprendizes, tutores e demais membros da equipe (staff).
O modelo será válido para ser aplicado nas outras etapas da EAD e carregará não só as diretrizes de organização do curso, como também a interpretação pedagógico-filosófica necessária para efetivar os objetivos. O modelo deve cativar a equipe, carregando o "espírito" e a motivação para que o resultado seja fiel aos seus principais objetivos. Temos aqui, então, mais um desafio inovador, exatamente aquele que torna este processo único: temos que criar ferramentas para captar, reter e modelar a própria pedagogia, suas teorias, seus métodos e sua práxis; deixando claro à equipe (educadores e leigos) o que está por traz de cada estratégia de aprendizagem. Uma vez construído e validado o modelo pode ser aplicado, reproduzido, auditado (4) e arquivado (5).
O que descreveremos aqui é o meta-modelo (6) para a modelagem de cursos que sejam viáveis sobre qualquer plataforma tecnológica, método de ensino e estratégia de distribuição de conteúdo. A seguir descreveremos de maneira simples cada etapa do processo, identificando ao final o que foi construído e como se dará a organização.
Como foi dito acima, partimos do princípio de que o conhecimento não é egoísta, é comum e construído dialogicamente (7). Temos aí então a primeira etapa a ser vencida e que irá situar todos os demais processos daqui para frente: apresentar o conhecimento que se deseja construir de maneira sistematizada e ideologicamente situada. Isto é muito importante, pois uma interpretação errônea ou divergente do conteúdo, dos objetivos e da estratégia inicial irá prejudicar as decisões posteriores e toda a estrutura avaliativa (do curso e dos alunos).
Aqui, a linguagem é a nossa principal ferramenta e pensar um curso não é condição suficiente para torná-lo real. O primeiro passo então é realizar uma primeira sistematização, descrevendo de maneira clara e coerente tudo o que ocorrerá no curso: objetivos, justificativa, conceitos, o(s) caminho(s) a ser(em) percorrido(s)... Se possível, também se deve apontar a(s) metodologia(s)/estratégia(s) a ser(em) empregada(s), recursos, experiências, tarefas para os alunos, etc. Porém, mais do que um tratado pedagógico, o manifesto deve conter a motivação dos autores (incluindo-se as razões de mercado) e a defesa do curso, estes dois elementos deverão ser fortes o suficiente para envolver o restante da equipe e garantir tudo o que vier depois.
Talvez soe estranho que o primeiro movimento num processo que se diz dialógico seja a elaboração solitária de um documento. Mas aí é que está a função primeira da linguagem: comunicar. Podemos pensar e conjecturar só para nós, só para dentro de nós. Mas não se escreve sozinho, se escreve para alguém. O manifesto (8) é a defesa de algo para um interlocutor ainda não nomeado, mas que existe e é, como todo ser humano, crítico. Por isso ele não é um rascunho, por isso ele é coerente e elaborado, por isso ele é apaixonado e por isso ele não é científico. Ele é uma estratégia de organização, o primeiro movimento de sistematização das idéias para o futuro curso e também é o documento mais elaborado que irá existir neste sentido, pois não é objetivo do planejamento do ensino cientificar seu conteúdo. Ele tem uma função plena: ser o texto gerador, ser aquele primeiro diálogo, que não se pode perder, pois carrega a gênese de tudo o que virá.
Bem, depois disso tudo, deve estar clara a importância e o papel do manifesto neste método. Mesmo assim vale ressaltar que ele deve ser elaborado como um resumo de tudo o que se vai abordar no curso. Deve ser direto, coerente e justificado. Não deve ser longo e nem repetitivo.
O manifesto deve ser entregue à equipe de planejamento do ensino e será analisado em conjunto com a estrutura inicial, que trataremos na segunda parte deste artigo. O manifesto irá guiar todo o trabalho posterior, não como material de consulta constante, mas como componente principal para construir o conhecimento da equipe sobre o curso que irão gestar.

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