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Por Jaime Balbino
Data de Publicação: 29 de Setembro de 2006
O Classmate PC, da Intel, é a resposta das empresas de tecnologia ao projeto educacional da OLPC (One Laptop Per Children). Mesmo sendo uma iniciativa de fundo meramente político com sérias dificuldades para se viabilizar dentro do modelo de mercado tradicional, ele sinaliza a busca de estratégias que atinjam o grande mercado potencial revelado pelo laptop de US$ 100 (renomeado para 2B1); principalmente porque os maiores financiadores da inclusão social nos paises pobres continuarão sendo os governos locais, na sua maioria já grandes consumidores de hardware e software.
O projeto esboçado pela Intel diverge da OLPC principalmente por ser um equipamento para o espaço físico escolar. Esta característica, por si só, implica outras abordagens, ferramentas e posicionamentos. Pelo preço inicialmente sugerido (US$ 400,00) ele não é uma "ameaça" ao projeto da OLPC - na verdade, o site até sugere sua adoção em escolas particulares, onde poderia ser adquirido como material escolar pelos próprios pais dos alunos, já que o 2B1 dificilmente será vendido diretamente ao consumidor e, caso isto ocorra, seu custo não seria competitivo.
No entanto, a adoção, por uma escola particular, de um laptop de cerca de R$ 900,00 (sem impostos) como material escolar e componente de um projeto pedagógico é uma solução racional? Para comparação, nos EUA, hoje, um laptop barato (e com mais recursos) sai por até US$ 600,00. A questão aqui não é somente o custo, mas os riscos potenciais que fariam o equipamento, apesar de móvel, ficar confinado na sala de aula ou em alguns ambientes "seguros", como a casa do aluno.
Na minha opinião, há outras soluções possíveis que poderiam oferecer mobilidade, acessibilidade e bons recursos a um custo suficientemente baixo, atraindo uma grande base de usuários e criando demanda para que haja desenvolvimento e modificações profundas na educação em todos os níveis, levando as boas idéias semeadas pela OLPC a outros nichos sociais.
Certa vez li de um colunista que, se quiséssemos ver inovação, esquecêssemos o mercado corporativo e olhássemos atentamente o de entretenimento, especialmente o de games. De fato, as melhores soluções em interfaces, otimização de hardware e serviços nos últimos 10 anos, pelo menos, são encontrados aí.
Em outro artigo classifiquei o 2B1 como uma "central multimídia portátil" e não como um laptop. Na época de sua concepção, em 2004, pelo então diretor do MIT Nicolas Negroponte, equipamentos acessíveis com as características que descreveremos a seguir não existiam, mas hoje, influenciados ou não pelo 2B1 (e vice-versa), é possível dizer que há uma nova classe de eletroportáteis na qual o hardware da OLPC pode melhor se encaixar, apesar dos objetivos finais um tanto distintos.
Analisemos, por exemplo, o Mylo, da Sony, um digno representante desta nova geração e talvez o "primo" mais próximo do 2B1. Ele é um gamer, um player de áudio e vídeo e um navegador que se conecta automaticamente a uma rede Wi-Fi, permitindo a interação através do Skype, de mensageiros eletrônicos e e-mail. Relativamente discreto, possui um teclado escamoteável, 1GB de memória expansível e NÃO É celular. Seu foco total no entretenimento o exime de qualquer recurso que possa ser "corrompido" em prol do mundo corporativo. Esta abordagem lúdica da tecnologia é um importante ponto em comum com a proposta da OLPC. Ao mesmo tempo, distingue fortemente o 2B1 de outros projetos - móveis ou não - como o conceito tradicional de "salas de informática", os laptops convencionais, PDAs e Pocket PCs.
O GP2X também é um gamer + player A/V, mas faz parte de uma geração anterior, sem teclado e sem conexão à Internet. No entanto é altamente hackeavel, pois é baseado em Linux (O Mylo também roda Linux, mas não possui uma política de desenvolvimento para terceiros). No hardware ele traz uma solução interessante: utiliza dois processadores, desta maneira ele consegue aumentar a capacidade de processamento sem elevar custos e sem ter muitos problemas com aquecimento e consumo de energia. Por não poder se conectar a uma rede, seu uso na educação móvel é inviável, no entanto chama a atenção as soluções adotadas que permitiram seu barateamento com a manutenção da qualidade e a maior facilidade de desenvolvimento de aplicativos. O jeito é torcer para que seus sucessores incorporem características móveis.
Mas porque ainda adotaríamos, então, o projeto da OLPC se podemos adaptar outras soluções, ou mesmo aguardar por novos produtos a preços baixos? Há duas respostas possíveis: 1) O projeto da OLPC além de ser específico para educação tem toda sua estrutura voltada para os seus objetivos de inclusão social de comunidades pobres e dificilmente poderia ser desviado para outros fins - os dois últimos aparelhos que citei tem foco principal no entreterimento. 2) O atual Sony Mylo, por exemplo, sempre será mais caro (US$ 350,00) que o 2B1 e virtualmente inútil para algumas atividades, como escrever textos longos ou desenhar.
No entanto, para outras realidades sociais, como nas escolas particulares, nos cursos técnicos e mesmo nas universidades, estas maquininhas poderiam fazer uma grande diferença, principalmente se as "domarmos", acrescentando ferramentas e serviços voltados para o ensino.
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