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O nacionalismo e a segurança
Colaboração: Rubens Queiroz de Almeida
Data de Publicação: 23 de Setembro de 2004
O nacionalismo e a segurança, por Luís Nassif
Nos EUA, uma pequena empresa de tecnologia conseguiu desenvolver
um identificador eletrônico de impressão digital. Imediatamente,
conquistou uma encomenda de US$ 1 milhão do Pentágono.
No Brasil, a pequena Griaule - empresa incubada na Unicamp - desenvolveu um sistema de identificação digital em larga escala, que foi considerado o oitavo melhor do mundo pelo Nist (uma espécie de Inmetro ampliado dos EUA). Foram 30 dias de processamento contínuo nos Estados Unidos, com um sistema de "clusters" cedido pela Itautec.
O que ela ganhou? Nada. A Polícia Federal adquiriu por US$
39 milhões um sistema francês de identificação digital. Era
o módulo inicial, que permite armazenar apenas 5 milhões de
digitais. Se quiser estender para o país inteiro, serão mais
US$ 500 milhões. Depois da saída de Luiz Eduardo Soares do
Ministério da Justiça, há uma orientação para que as polícias
de todos os Estados adquiram a solução francesa. É um pálido
exemplo da falta de sintonia entre as políticas industriais
do governo e a falta de definição para o sistema de compras
e de financiamento.
A Griaule começou seu negócio com um financiamento de R$ 80 mil
da Finep - que saiu após dois anos de análise. Desenvolvido
o sistema, conseguiu entrar em alguns Estados e vender para
empresas privadas. Todo o sistema de identificação digital do
Poupatempo é dela, assim como os sistemas de Tocantins e de
outros Estados.
Quando a Polícia Federal abriu a licitação, o sistema nem sequer
foi considerado. Queria-se um sistema de Primeiro Mundo. Aí
a empresa aproveitou uma ida a Washington, em um evento com
o Nist, e apresentou o produto para certificação no FBI. O
órgão solicitou os testes ao Nist, e a empresa foi habilitada
a fornecer ao FBI. Nem isso demoveu a PF de sua decisão. A
encomenda piloto da PF está sendo transformada, agora, em
uma compra quase obrigatória para que as polícias estaduais
se integrem ao sistema de segurança único pensado. Todo
o sistema de identificação nacional estará dependendo de
tecnologia externa.
Como é que se faz? Se se consegue o produto inovador, não
há capital de giro. O financiamento para pesquisas ou está
disponível para a academia ou para grandes empresas. Adota-se
um modelo invertido do poder de compra do Estado. Nos EUA, há
uma política para aquisição preferencial de pequenas empresas
sediadas no país. No Brasil, a opção é pelo "Primeiro Mundo",
independentemente da análise técnica dos sistemas nacionais. O
nacionalismo não consiste apenas em paradas militares. Há que
implementar uma política de compras efetiva. Para evitar o uso
de licitações de sistemas para jogadas - como tem ocorrido com
freqüência em quase todos os níveis de governo - , poderia se
criar um sistema de certificação, tipo do Nist, a ser aplicado
pelo Inmetro. E as empresas nacionais certificadas não poderiam
ser alijadas de licitações públicas.
O próprio presidente da República compareceu à solenidade em
que a PF inaugurou seu equipamento francês - certamente por
falta de informação. Mas é uma prova de que o nacionalismo
ainda é uma posição muito mais retórica do que efetiva.
Veja a relação completa dos artigos de Rubens Queiroz de Almeida
Referências Adicionais
Referências adicionais sobre os assuntos abordados neste site podem ser encontradas em nossa Bibliografia.
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