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O objetivo da Internet 2.0 é gerar Inteligência Coletiva

Por Carlos Nepomuceno

Data de Publicação: 14 de Dezembro de 2006

No iní­cio de março, o jornal Globo publicou o artigo A vez da Web 2.0 decretando a nova fase da Internet.

Nesta nova etapa, a expectativa é de que consigamos superar a primeira etapa, na qual tentamos desesperadamente encaixá-la em todos os modelos conhecidos de comunicação.

Basicamente, um emissor divulgando informações e tantos outros as recebendo.

Quando os primeiros usuários entraram na rede começaram a perceber que este modelo clássico poderia ser modificado e diversos visionários criaram produtos e serviços, que foram aos poucos mostrando este novo potencial.

Entre eles:

  • Os navegadores . que permitiam a leitura de textos de forma anárquica, através de hiperlinks, e não mais na ordem de um livro tradicional, página a página;

  • As listas de discussão e os grupos eletrônicos . que possibilitaram o primeiro modelo de uma comunicação colaborativa, sem a figura do emissor único;

  • O correio eletrônico . que permitiu a troca de mensagens, barata e a longa distância para múltiplos destinatários;

  • Os mensageiros eletrônicos . que expandiram o conceito da comunicação virtual para uma presença constante e troca de pequenas mensagens entre amigos e colegas de trabalho ao longo do dia e das madrugadas.

E a evolução permanente dos websites, que foram aos poucos permitindo cada vez mais a participação e a colaboração dos usuários no processo de geração de informação.

Na verdade, a expectativa da Web 2.0 é criar alguns novos paradigmas:

  • a Internet é um novo meio de comunicação, com forte tendência í  interação;

  • ou se quisermos ser mais radicais: a Internet é um meio de interação, com uma forte possibilidade de comunicação horizontal.

Assim, a Web 2.0 tem como proposta passar a limpo os experimentos e erros de adaptação do modelo de comunicação clássica para este novo ambiente, que continuam por aí­, mas diminuindo gradualmente.

Assim, quando falarmos de Internet 2.0 estamos partindo do princí­pio que os agentes deste processo estarão trabalhando na tentativa de potencializar ao máximo este novo ambiente: tendo a colaboração, a interação e a força do coletivo, como o motor para dar respostas a essa nova sociedade virtual.

Ou seja, quanto mais .Internetamos. ou virtualizamos a sociedade, mais rápida ela gera seus ciclos e mais depressa precisamos acompanhá-los para tomar as decisões, que vão da escolha da carreira do filho ao investimento de bilhões de uma nova fábrica da Vale do Rio Doce na China.

A inteligência coletiva

Diante desta nova visão, introduzimos o conceito de que tipo de conhecimento, inteligência ou esperteza os seres humanos precisarão para acompanhar este novo cenário.

As tentativas ligadas pela nova área, batizada de Gestão de Conhecimento avançam a passos largos nesta direção, mas nem sempre acompanhados da compreensão do papel fundamental que a Internet terá neste processo.

São ainda poucos entre nós contemporâneos dessa .Tisunami. tecnológica-cultural-econômica, que podem ter a exata noção do tamanho da onda.

Se, entretanto, não podemos ter medidas exatas, podemos trabalhar com a mesma intuição dos elefantes, que subiram nas montanhas mais altas da Indonésia para escapar da catástrofe.

Nosso instinto nos diz que precisamos estar inicialmente abertos a:

  • Reunir as pessoas que já tem experiência e idéias neste campo.

  • Novas ferramentas para demonstrar na prática este novo conceito.

  • E reciclar a mão de obra na direção de sair do modelo clássico . emissor . público para o de público-público, sendo apenas um animador e administrador de conflitos e encontros.

Esta tese vale para toda a sociedade, principalmente a nossa, com um grande potencial criativo e comunicativo, mas desperdiçado sem um eixo estratégico.

Devemos pensar em um novo modelo parecido com este para os projetos da Web 2.0:

O profissional de comunicação, informação e tecnologia perde o seu antigo poder. Hoje, ele mais anima e administra conflitos e encontros e edita os resultados de tudo isso, do que coloca informações.

Na verdade, o novo modelo é uma nova forma cultural de relacionamento, da qual estamos nos habituando lentamente. Muitos são céticos de que a interação prospere, pois o ser humano é por natureza acomodado.

Sim, projetos que potencializem a Internet 2.0 não são fáceis, pois estarão indo contra a uma arraigada cultura que temos do que é se informar e trocar conhecimento.

São basicamente projetos de mudanças culturais fortes.

Não são todos os ambientes da sociedade que hoje reúnem as condições para esta implantação.

Desenvolvi a teoria de que quanto mais o cenário de um determinado coletivo é instável, de grande inovação e competição, mais aquele grupo terá benefí­cios e interesse em projetos interativos, focados em troca de conhecimento dinâmico usando as redes.

O mesmo vale para o contrário: quanto mais estável for a situação de determinado grupo, mais ele tenderá a rejeitar projetos deste tipo e menos benefí­cios verá no esforços demandados de cada um e do grupo.

Mas, o mais interessante do processo é que, pela velocidade das mudanças, quanto mais um grupo se utiliza do ambiente colaborativo da Web, mais ele se distanciará daqueles que não o fazem, valendo esta dinâmica para pessoas, empresas, instituições e paí­ses.

Assim, quando falamos em Internet ou Web 2.0 não podemos nos perder em tecnicismos, ou em imagens piscando, ou ví­deos passando.

O que realmente fará a diferença para o ser humano é a capacidade que ele terá de interagir em um mundo novo, não mais para ser informado, mais para informar, descobrindo suas tribos e produzindo com eles o conhecimento necessário para enfrentar este novo cenário veloz.

As decisões tomadas, a experiência adquirida e a memória do grupo preservada com rápida recuperação para os que ainda virão - tudo isso, podemos chamar de Inteligência Coletiva, o objetivo principal da nova Web 2.0.

Sobre o autor

Carlos Nepomuceno é Doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense é consultor e jornalista especializado em Tecnologia (Informática e Internet), com larga experiência em projetos nestas áreas. Foi um dos primeiros webmasters do Brasil. Atualmente, presta consultoria permanente para as seguintes instituições: Petrobras, IBAM e Sebrae-RJ. í‰ professor do MBA de Gestão de Conhecimento do CRIE/Coppe/UFRJ, com a cadeira "Inteligência Coletiva" e coordenador do ICO - Instituto de Inteligência Coletiva.

í‰ autor, com Marcos Cavalcanti, do livro O Conhecimento em Rede Publicado pela Campus/Elsevier, é o primeiro livro no Brasil a discutir a WEB 2.0, a levantar paradigmas quanto í  inteligência coletiva e a mostrar, na prática, como implantar projetos desta natureza. O livro trata desta nova revolução cultural, social e tecnológica a que todos estamos expostos.

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