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Cezar Taurion, Dados Abertos e muito mais

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 04 de Julho de 2013

No final de maio deste ano, meu trabalho sobre o processo de abertura de dados no Brasil foi lançado durante uma reunião de comunidades de prática do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Para fazer esse trabalho, entrevistei várias pessoas, dentre elas o Cezar Taurion, da IBM. Como o trabalho tinha um limite estrito de sete páginas (que ainda consegui flexibilizar com algumas referências e anexos), muito do que conversei com o Taurion acabou ficando de fora da edição final, ainda que a essência tenha sido mantida. Achei, entretanto, nossa conversa tão boa que pedi ao Taurion a sua licença para publicá-la aqui em minha coluna no Dicas-L. Aí está ela!

Brod:

Taurion, há uma série de coisas interessantes acontecendo, motivadas pelo processo de abertura de dados governamentais. Em especial, gostaria de falar contigo sobre as oportunidades de negócios com dados abertos governamentais.

Taurion:

O primeiro passo é, de fato, disponibilizar os dados. Faço uma analogia disso com o petróleo na sociedade industrial. Há muito petróleo, mas enquanto estiver embaixo da terra, não faz sentido algum. Há vários portais de transparência e dados abertos, mas para a maioria dos cidadãos não é ainda fácil a navegação nessa informação. É necessária a criação de uma camada de acesso que seja intuitiva, acessível via smartphones ou tablets na qual o próprio usuário possa fazer o cruzamento e a visualização de informações. Imagino um grande repositório, um Big Data, integrando todos os dados abertos de governo e fornecendo um framework que facilite o desenvolvimento de aplicações.

Eventos como as Campus Parties poderiam ser aproveitadas para a criação de trilhas com temas do tipo "Desenvolva Aplicações para Melhorar a sua Cidade". Para mim a cidade é o elemento mais importante. Claro que o país é importante, o estado é importante, mas você mora é na cidade, onde é sempre mais fácil de você agir e engajar-se nas questões do seu dia-a-dia: desde a aplicação do orçamento municipal até a reconstrução de uma escola; tapar um buraco; podar uma árvore. Enfim, coisas que te afetam diretamente e nas quais você pode começar a influenciar imediatamente. Concursos de empreendedorismo nesta área, envolvendo o desenvolvimento de aplicativos podem incentivar o engajamento da população neste sentido. Tenho conversado muito com Universidades e ainda não consegui perceber, de forma clara, este tipo de engajamento, vejo apenas iniciativas isoladas: um aluno aqui, um professor lá preocupados com isso, mas não há um movimento mais amplo. Acho que ainda falta uma visão, um impulso para o desenvolvimento de aplicações que facilitem o acesso à informação. A informação, como o petróleo, está disponível, mas o acesso a ela ainda não é fácil.

Brod:

Os governos têm promovido alguns concursos. A Câmara de Vereadores de São Paulo promoveu, recentemente, um Hackaton, incentivando hackers a desenvolverem aplicações. Mas concordo contigo. Ainda falta um trabalho do governo junto às instituições de ensino para tornar esta criação de aplicações com dados abertos algo mais estruturado e facilmente replicável.

Taurion:

Verdade. Somos muito motivados pelo emocional. Desabamentos, alagamentos... É feito um trabalho de apoio e reconstrução que não necessariamente explora aspectos que podem evitar que estes desastres repitam-se. A tecnologia pode nos ajudar na qualificação de nosso engajamento.

Vou dar o exemplo: a prefeitura do Rio de Janeiro disponibiliza um aplicativo chamado 1746. O nome vem do número do telefone que os cidadãos ligam para solicitar serviços à prefeitura. Você baixa o aplicativo em seu smartphone e, ao ver um buraco, um carro mal estacionado, tira uma foto. A localização geográfica é inserida automaticamente, a reclamação é enviada imediatamente à prefeitura e você recebe um número de protocolo para acompanhar o processo. Interessantemente saiu em um jornal, há poucos dias, que a própria prefeitura descobriu que o sistema estava sendo mal utilizado: o cidadão abria um protocolo e, passados alguns dias, alguém da prefeitura o fechava, sem ter resolvido o problema. Antes deste sistema, caso isso acontecesse, o cidadão que apontou o problema corria o risco de ficar sem saber o que aconteceu com seu pedido. Hoje ele vê seu pedido sendo fechado e, ao verificar o problema que relatou, tira outra foto e reclama: "olha, vocês disseram que este buraco foi fechado, mas olha aqui! Ele está do mesmo jeito!". Como resultado, a prefeitura anunciou que melhorará sua auditoria quanto à solução dos problemas. Mas note que o próprio auditor é o cidadão! A prefeitura descobriu esse desvio de comportamento graças aos cidadãos.

Veja que interessante: a prefeitura criou o aplicativo, o cidadão engajou-se e agora há um diálogo entre os dois. Assim, permito-me falar, o acesso a dados abertos influencia diretamente na criação de uma sociedade mais cognitiva. Para isso é preciso de tecnologia (mas esta é a parte mais fácil), do engajamento do governo em todas as esferas e, por fim, o engajamento da própria sociedade.

Então, eventos como Hackatons, Campus Party e outros podem incentivar a criação de empreendedorismo social onde o tratamento apropriado dos dados pode até - por que não? - ser vendido como informação útil. O cruzamento de um grande volume de dados, a descoberta de informações significativas que não seriam descobertas de outra forma é um serviço que pode ser comercializado. A analogia agora é com o Linux, desenvolvido em comunidade mas que permite o espaço a uma distribuição, como a RedHat, que não vende o Linux, mas os serviços que agrega a ele. O conceito é o mesmo: os dados são públicos, mas um serviço sofisticado de tratamento dos mesmos pode representar um modelo de negócios. Há muito a ser explorado! Oportunidades de novos negócios, de engajamento social e de engajamento do governo em todas as suas esferas.

Eu viajei muito em 2012. Na semana passada estive em Belém e na semana anterior em Porto Velho. Nas minhas viagens pelo Brasil eu constato diferenças muito grandes. Nas regiões Norte e Nordeste o PIB, em sua maior parte, depende do governo. É mais difícil um engajamento crítico quando se é funcionário do governo. No Sul e no Sudeste há uma independência maior, aí pode-se criticar o governo porque deseja-se que ele seja eficiente para que os negócios sejam eficientes para os cidadãos: não há uma dependência de um salário pago pelo governo, ao contrário, o governo toma parte deste salário. Por isso devem haver soluções diferentes para cada região, para cada cidade. Não podemos esperar que uma solução desenvolvida aqui, no Sudeste, seja imediatamente aplicável no Amazonas. Os dados até podem servir de uma forma mais generalizada, mas há maneiras culturais diferentes nos seus usos.

Brod:

O que estamos conversando reflete também o que tens escrito no teu blog e abordado em palestras. Tu tens um engajamento muito forte com as questões de cidades mais inteligentes, cidades digitais. O que disseste até agora faz-me perceber a conexão que existe entre dados abertos, transparência pública e a melhoria da qualidade de vida nas cidades. Também falaste de oportunidades de negócios. Qual o tamanho (e o tempo no qual ocorrerão) estas oportunidades, não só com relação a dados abertos governamentais, mas também a dados abertos empresariais?

Taurion:

Para responder, vou contar uma historinha. Envolvi-me muito com o tema de cidades inteligentes. Estive profundamente envolvido em um projeto no Rio de Janeiro e em alguns outros projetos. Isto fez-me perceber algumas coisas.

Primeiro: um projeto de cidade inteligente deve sair do papel e transformar, de fato, a cidade. Você colocar câmeras espalhadas pela cidade não quer dizer muita coisa. As câmeras mostram algo acontecendo e, até a polícia chegar, com o trânsito caótico, aconterá apenas o registro do fato ocorrido. Não funciona assim. A cidade é um conjunto de sistemas que operam de forma bem desintegrada. Há as secretarias de obras, educação, transporte, saúde e outras que operam em silos isolados, sem cruzamento de dados entre eles. O Centro de Operações da Cidade do Rio de Janeiro propôs-se, em um primeiro momento, a provocar essa integração nem que seja a forceps. Um painel na Companhia de Engenharia de Trânsito da Prefeitura, que você já deve ter visto em vídeo ou em fotos, hoje com a exibição de imagens de 500 câmeras espalhadas pela cidade (em breve serão mais) observadas por representantes de todos os órgãos que trabalham com a prefeitura e alguns órgãos ligados ao estado, como as concessionárias de metrô e trens. Isto já mostra a união necessária entre duas esferas de governo, compartilhando informações.

Segundo: quando há uma situação de crise, um acidente, todos os envolvidos devem agir pois estão todos no mesmo local: não há como alguém fingir que não viu nada. No caso de uma colisão pode-se acionar a guarda municipal, deslocar uma viatura até o local, ajustar a temporização dos semáforos para acelerar a chegada de uma ambulância (se for preciso). Ou seja, tomam-se as providências necessárias. Essa ação integrada, antes, era bem mais difícil.

Assim, para que você tenha acesso a dados úteis na criação de uma cidade inteligente, é necessário que exista a integração dos dados e depois dos processos de trabalho.

Outra questão é que nenhuma solução completa ou empacotada funciona para todas as cidades. Há diferenças sociais, culturais, orçamentárias, topográficas. Cidades são diferentes. No Rio há uma concentração do deslocamento urbano em direção ao centro e na Barra da Tijuca pela manhã e o contrário ao final da tarde. Em São Paulo é Leste, Oeste, Sul, Norte o tempo inteiro. Em Salvador o trânsito é complicadíssimo, com poucas vias de maior velocidade que uma vez já foram highways e hoje são stopways. É necessário entender as características de cada cidade. Aonde estou, para onde quero ir e qual a vocação de minha cidade. Este entendimento de onde a cidade quer chegar tem a ver com a maturidade da gestão pública, que é muito heterogênea aqui no Brasil. Você encontra prefeitos com uma visão executiva, de longo prazo e encontra outros apenas com a visão imediata do poder local, ainda coronelista.

Agora, qual é o papel da iniciativa privada? A iniciativa privada não pode tornar uma cidade inteligente. Ela não pode intervir na cidade. É necessário haver uma vontade política e as empresas devem começar a trabalhar em comunhão. Só como exemplo, no Centro de Operações do Rio as telas são da Samsung, os semáforos de algum fabricante, os servidores são da IBM, que também forneceu os processos de integração e o sistema de visualização, os roteadores são da CISCO. Aí há uma oportunidade muito grande para os empreendedores, já que nenhuma destas empresas globais conhecem integralmente as características do país e, muito menos, as características específicas de uma cidade como questões de saneamento, mobilidade urbana. Não posso trazer uma solução pronta de Nova Iorque para o Rio. No primeiro mundo estão sendo otimizadas as redes de transporte público, aqui as estamos criando. As premissas são diferentes.

Antes de começarmos a desenvolver o Centro de Operações da cidade do Rio de Janeiro fizemos um workshop onde trouxemos vários executivos da IBM para que falassem com gestores públicos do Rio. Não foi nada legal. Era muito difícil explicar para os americanos a importância de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), falar sobre a revitalização da região portuária do Rio. Uma região degradada em Boston é muito diferente de uma região degradada no Rio de Janeiro. Uma comunidade pobre americana em nada se compara à Favela do Vintém na região da Baixada. É necessário, sim, trazer visões de fora, mas elas precisam passar por adequações profundas para que possam ser aplicadas aqui. Vejo um campo imenso para estas adequações e novos desenvolvimentos para cidades inteligentes.

Nas próximas eleições municipais, em 2016, em cidades com uma visão mais madura, o conceito de cidades inteligentes será uma plataforma política. Hoje já é possível ver alguns gestores falando sobre esse assunto. Nas minhas várias viagens neste ano falei muito sobre o assunto e isto não gerou nenhum negócio, até porque isso é normal em um ano de mudança de governo. Para o ano que vem já tenho uma agenda significativa de contatos com gestores que querem voltar a discutir o assunto com mais detalhes, querem saber como uma empresa como a IBM pode ajudá-los a resolver o problema de mobilidade urbana. Ou seja, já há o interesse. E estas cidades com visão mais madura às quais me refiro não são, necessariamente, grandes cidades. Algumas são capitais e outras são cidades do interior de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais... Basicamente cidades que estão entre um tamanho médio e grande, começando a ter os problemas das grandes cidades e não os querem, obviamente. Estão no momento de fazer as coisas acontecerem. Para estas cidades é até mais fácil a alocação orçamentária para implementar mudanças do que em cidades como Rio ou São Paulo, onde já são tantos os problemas que torná-las inteligentes é muito mais difícil, necessitando de uma energia muito maior.

Brod:

Entendo esta questão de maturação nos próximos quatro anos, mas não achas que os prefeitos que assumirão seus mandatos já em 2013 acelerarão seus investimentos e ações com relação a cidades inteligentes, com a pressão de exporem dados em formato aberto e cumprir a Lei de Acesso à Informação?

Taurion:

Olha, minha percepção muito particular, já que nunca fiz esta pergunta de uma maneira direta aos gestores públicos, é a de que estas coisas não estão conectadas. Há uma lei a ser cumprida, dados precisam ser abertos, isto ocorrerá e pronto, por obrigação. Não há uma noção clara do que será feito, depois, com isso. A questão de cidades inteligentes é tratada de outra forma. Já conversei com gestores públicos que não viam relação entre portal de transparência e cidade inteligente. Então digo a eles que uma cidade inteligente é aquele da qual se consegue tomar o pulso, falar com ela, e isso dá-se através da obtenção de dados, vindos através de sensores, de semáforos, através de informações fornecidas pelos cidadãos ou outras que o próprio governo já possui através da coleta de dados de seus próprios sistemas. Só então eles dão-se conta de que a junção de tudo isso é que irá permitir criar uma cidade inteligente. Mas a imagem que muitos ainda têm de uma cidade inteligente é aquela com um monte de câmeras e uma central de operações para monitorar o trânsito.

Brod:

Eu quis te fazer esta pergunta de forma bem proposital e oportunista, já que a experiência que tive é muito similar. A grande maioria dos gestores municipais só fazem a conexão entre dados abertos, transparência, melhoria da gestão pública e cidades inteligentes quando efetivamente provocados a conectar estas coisas. Não é algo natural. Achei até que isso pudesse ser um comportamento regional, mas falando contigo vejo que é algo generalizado.

Taurion:

Verdade. E por incrível que pareça, o conceito de cidade inteligente ficou meio distorcido com o Centro de Operações do Rio. O pessoal olhava aquilo e dizia: olha que bonito, isso é uma cidade inteligente! O Rio está se tornando inteligente, ainda não é. As câmeras mostram o que acontece em tempo real, mas elas não têm inteligência. Uma pessoa é obrigada a ficar olhando os monitores. Mas é possível ter inteligência nas câmeras, colocar nelas uma regra de negócios onde ela sabe que, em uma rua, os carros devem apenas virar à direita. Um entra a esquerda e a câmera gera um alarme para este fato específico. Isto não vai acontecer de um dia para o outro. A tecnologia já existe, mas exige investimento. O grande fator de sucesso do Centro de Operações, mesmo que as câmeras e os monitores sejam a parte bonita, é a integração dos órgãos públicos na solução de problemas. Este é o grande resultado positivo e ele não aparece para o grande público. O que aparece são as câmeras, o painel de monitoramento e o guarda multando em caso de infração e isso é apenas um detalhe. Cidade inteligente significa a integração entre os diversos sistemas que compõem a cidade. Significa não só construir uma escola, mas saber se as vagas estão sendo bem utilizadas, se o deslocamento das pessoas até ela é adequado. Eu sei onde moram os alunos e onde está a escola, então posso ter um algoritmo de alocação mais inteligente. De forma similar o mesmo se aplica para leitos hospitalares, para a gestão de ativos da prefeitura. Há muitos ativos nas prefeituras que são mal controlados: sinais de trânsito, ambulâncias. Tudo isto se resume a dados que algumas vezes existem em sistemas totalmente desconectados.

Tentando conectar todas essas coisas, quando falamos em portal de transparência o que eu vejo são, basicamente, dados financeiros: receita, despesa, quem gastou, qual foi a secretaria, quanto foi planejado, empenhado e executado, assim por diante. Isso é uma pequena vertente. Não tenho, por exemplo, a informação do que se está gastando com relação ao plano diretor da cidade. Posso ver que a secretaria de obras empenhou, por exemplo, 70% do orçamento da cidade. Mas se empenhasse 100% resolveria os problemas da cidade? Quais obras ela está fazendo? Os dados financeiros, isolados, não me dizem muita coisa. Preciso casar estas informações com o plano diretor e estratégico da cidade para saber se as obras estão sendo feitas como devem ser feitas. A população tem o importantíssimo papel de opinar sobre isso. A tecnologia permite-me trabalhar estes dados.

Em resumo, hoje, transparência e cidades inteligentes são vistos de formas isoladas. Uma para atender legislação e outra para colocar painéis bonitos. Os dois conceitos estão errados. E a imensa maioria de portais de transparência que eu vi mostram apenas dados financeiros, como se só isso fosse importante. Não! Há milhares de outras informações que podem ser disponibilizadas para a criação de aplicativos que, dentre outras coisas, podem até tornar mais úteis as informações financeiras que já existem.

Brod:

Dá para perceber que, quando falamos em dados abertos, o significado disso não chegou ainda ao alcance da maioria da população. Pode ser que a mídia, os jornalistas, venham a trabalhar estes dados e expô-los de uma forma digerível para a população. Mas temos que reconhecer que os dados abertos não estão, hoje, expostos de uma maneira onde o cruzamento das informações possa ser feito de maneira fácil. É necessária a extração destes dados a partir de várias bases distintas e só, a partir daí, começar a fazer o cruzamento de informações. Quando achas que teremos todos estes dados centralizados em uma estrutura de Big Data, ao mesmo tempo digeríveis diretamente pelos cidadãos, para que eles contribuam efetivamente com a gestão pública?

Taurion:

Pense no seguinte: você usa um smartphone sem ter manual. Há pessoas que podem não ser tão bem preparadas tecnologicamente e, mesmo assim, acessam o smartphone brincando. Temos é que abandonar o paradigma de teclado, mouse, website. Tem um aplicativo que uso muito, o Flightradar24, que me dá o posicionamento de todos os aviões próximos a um determinado aeroporto. Não preciso mais perguntar à atendente da companhia aérea se meu voo está atrasado. Como sei o número do voo, o aplicativo me mostra onde ele está. E ele é intutivo, não tem manual. A disponibilização de aplicativos para a visualização de dados é importantíssima. Você começa a transformar dados herméticos em coisas visualmente compreensíveis. Como conversamos antes, deve-se incentivar o empreendedorismo social, hackatons, trilhas em Campus Party que fomentem a criação de aplicativos que façam esta transformação. A mobilidade, com dispositivos inteligentes são um primeiro passo para isso. O segundo é juntar os dados de várias fontes. Já comentei que apenas dados financeiros é um pedacinho de todas as informações. Preciso juntá-los com dados de saúde, começar até a poder prever e antecipar-me a problemas. No limite, deve ser possível combinar dados de saúde fornecidos pelo governo com mensagens trocadas pelo twitter e perceber que uma epidemia de dengue está começando a ser desencadeada em uma determinada região. As coisas acontecem no Facebook, Twitter, Google e, ao mesmo tempo, médicos registram em sistemas os seus atendimentos.

Juntar tudo isso vai levar muito tempo. Estes dados todos estão em formatos diferentes, com disposição ou não de serem tornados abertos e de maneiras diversas. Mas este é o caminho que teremos que seguir. Este é um processo em espiral. Já há dados disponíveis, sim. Mas eles não podem continuar herméticos como estão. Entre em qualquer portal da transparência: Ceará, Minas. É difícil acessar estes dados. Desta forma você não fará com que a população se aproxime e exija mais coisas. Mesmo que hoje o grande volume de dados seja relativo a finanças, vamos possibilitar a criação de visualizações (há muita pesquisa boa neste sentido) que mostrem claramente coisas que nem teríamos pensado em perguntar, algo que chame a atenção, que faça correlações que não teríamos imaginado. E se tivermos os dados financeiros associados ao plano diretor, podemos fazer avaliações ainda melhores. Posso pegar os dados da secretaria da saúde e ver a situação dos hospitais, a ocupação dos leitos, a taxa de morte por infecção hospitalar, associar isto a problemas de saneamento. Você começa a cruzar naturalmente os dados na medida em que a busca pela informação cresce. Antes não tínhamos smartphones. Hoje, quem tem um não consegue voltar ao celular antigo. É a mesma coisa. Antes as pessoas não tinham dados. Na medida em que passam a tê-los, com formas fáceis de visualização, elas passam a querê-los cada vez mais. A espiral torna-se um círculo virtuoso de demanda cada vez maior de informações. Esta demanda, esta pressão é que irá gerar o Big Data. Grande volume de dados com variedade, veracidade e velocidade, já que iremos querer agir em um foco de epidemia tão logo ela surja. Quanto mais eu tiver de tudo isso (variedade, veracidade e velocidade), mais valor eu tenho no meu conjunto de dados desde que, é claro, eu consiga tratá-lo e analisá-lo - aí entra a parte da visualização que, para mim, é fundamental.

Brod:

Uma série de artigos de outubro de 2012 da Harvard Business Review fala sobre esta questão de obter os dados, tratá-los, limpá-los e verificar a sua veracidade e dizem que o emprego mais sexy da atualidade é o do cientista de dados. Eles recomendam às empresas que contratem seus cientistas de dados no mundo do código aberto: pessoas que conheçam o Apache Hadoop, a ferramenta estatística R, a linguagem Python. Qual é a tua visão sobre a relação entre Big Data, Dados Abertos e Código Aberto?

Taurion:

O código aberto colabora, com certeza, bastante. Temos diversas soluções em cima do Hadoop. A IBM é uma distribuidora Hadoop e colaboramos com a comunidade. Mas há uma série de outras aplicações que não são de código aberto e que teremos que usá-las. O Hadoop trata os dados, mas se eu precisar de uma visualização que envolva o Google Maps ou o Street View terei que adquirir os serviços de quem já os tem, não vou desenvolver do zero.

Há dois profissionais envolvidos em Big Data. O cientista de dados é o mais preocupado em pegar o algoritmo, o conhecimento estatístico e tratar grandes volumes de dados de forma que sejam significativos, verídicos e tenham um bom desempenho em termos de velocidade de acesso. Mas também preciso de pessoas que tenham o conhecimento do negócio para que passam fazer as perguntas certas e, ao visualizar os dados, desenvolver novas perguntas nas quais o cientista de dados pode não estar focado. Ele é mais focado na tecnologia. Assim há também o analista de negócios ou cientista de negócios. Estas são carreiras nas quais estamos começando a falar, com dois focos claros. Uma que entenda a tecnologia (o cientista de dados), já que estamos em uma fase ainda muito imatura nestas tecnologias. Hoje falamos em Big Data mas daqui a alguns anos estaremos falando em Just Data. Hoje precisamos de muita gente para tratar a agregação e padronização destes formatos diferentes de dados, criar soluções novas. Como vou interpretar uma tendência a epidemia de gripe analisando tweets? Num tweet posso dizer especificamente "estou gripado" ou "estou demolido", e este demolido pode significar de gripe, de cansaço. Isto requer um tipo de computação cognitiva que envolve conhecimentos além da tecnologia. É necessário entender o contexto para saber se o "demolido" tem a ver com a gripe ou não, para isto será necessário o conhecimento do domínio da saúde, ou de outros, dependendo do contexto em questão. Isto será o trabalho do "cientista de negócios".

Há alguns dias eu conversava com um grupo de empreendedores e falava sobre um negócio que já está sendo explorado na Espanha por uma startup criada por grande empresa de telecomunicações. Isto deve vir para o Brasil. Imagine o volume de informações que uma operadora de telefonia móvel possui e que podem ser casadas com outras informações. Imagine acompanhar a movimentação de pessoas, não individualmente por questões de privacidade (a não ser que a pessoa permita). Na medida em que temos um celular e nos deslocamos, nosso aparelho comunica-se com as estações rádio-base. É possível saber, em cada estação, quantas pessoas estão conectadas a ela. Com a autorização das pessoas é possível identificar o tipo do smartphone e a quem ele pertence. Ao contrário de um computador, cujo uso pode ser compartilhado, o smartphone é de uso pessoal. Conhecendo as pessoas, onde elas estão e seus hábitos de consumo, posso fazer promoções específicas, individualizadas.

Há muitas possibilidades a serem pensadas. Você pode criar comunidades específicas para o tratamento de informações. Vamos supor o caso de fraudes: posso juntar os dados de bancos, operadoras de cartões, empresas aéreas, de telefonia móvel, cruzar estes dados e fazer análises preditivas de comportamentos fraudulentos. Com os dados separados isto é feito de forma meio primitiva: você comprou no Rio e, minutos depois, na República Tcheca, que negócio é esse? Mas essa compra na República Tcheca pode ter sido feita via Internet. Às vezes isso não funciona bem e até comigo aconteceu de eu comprar passagens aéreas em um site de Londres e ter a compra bloqueada porque, horas antes, eu havia usado meu cartão de crédito em um restaurante do Rio. Agora, juntando muitas fontes de dados pode ser possível verificar que um sujeito está fazendo muitas compras a crédito, fazendo muitas ligações para a Europa, encerrando minha conta bancária, comprando uma passagem (mesmo que em dinheiro) de uma companhia internacional. Este sujeito está fugindo do país! Estou brincando e imaginando situações, mas se for possível criar comunidades que consigam, de forma eficaz, coibir um grande volume de fraudes, isto traz um ganho bottom-line direto para todos os envolvidos. Assim, eu como um Banco, você como uma empresa de cartões e mais uma empresa de telefonia criamos um bloco de informações compartilhadas que nos dá uma vantagem competitiva no mercado.

Faço algumas analogias com relação ao Big Data. Uma é com o microscópio. Quando o microscópio surgiu ele abriu para nós o conhecimento de um monte de coisas que já existiam antes. Bactérias já estavam aí, apenas não sabíamos delas. Surgiu um novo mundo. Os avanços da medicina permitiram aumentar a taxa de sobrevivência das pessoas e muitos deles vieram do microscópio. Com o Big Data vai acontecer isso, um impacto talvez tão grande quanto o da nanotecnologia. Ainda estramos arranhando a superfície das possibilidades.

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Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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