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Paradoxo
Data de Publicação: 08 de Dezembro de 2009
A BrodTec está auxiliando a Casa de Cinema de Porto Alegre em sua ampla migração para softwares livres. A liberdade, certamente, não é estranha à Casa e nem a seus sócios. Em um de seus mais famosos curtas, Ilha das Flores, com roteiro e direção de Jorge Furtado, há a citação de um poema de Cecília Meireles: "Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há quem explique e ninguém que não entenda". Prometo, ao final do processo de migração, artigos específicos sobre este trabalho. O tema deste aqui é outro.
A Dobro é uma agência de comunicação exponencial que trabalha com as várias formas através das quais empresas e instituições relacionam-se com seus clientes. Dentre os sócios da Dobro estão minha mulher, a Meire, e meu irmão, o Rodrigo. Na absoluta maioria das vezes em que a BrodTec fornece um portal corporativo para uma empresa, é a Dobro quem assume a parte visual do projeto. Foi assim com o portal da Casa de Cinema de Porto Alegre, totalmente desenvolvido com softwares livres (Drupal, MySQL, apache, Linux, PHP, etc...). A Dobro iniciou seu processo de expansão para Porto Alegre e sugeri que eles ocupassem, durante o início deste processo, um espaço dentro da Casa. Após rapidíssima negociação, isto concretizou-se e a Dobro passou a trabalhar junto com a Casa na ampliação do relacionamento com seu público, especialmente através dos canais disponíveis na Internet.
A Dobro acabou por alugar um apartamento na rua São Manoel, vizinha à Miguel Tostes, onde fica a Casa de Cinema de Porto Alegre. Em função do trabalho de migração (e também de ligar o gás, instalar a conexão à internet e outros pequenos trabalhos masculinos) tenho passado os últimos dias como inquilino nesse apartamento.
Em uma das recentes reuniões que tivemos com a Casa, o Giba Assis Brasil, um dos sócios, presenteou-me com alguns livros que ele tinha em duplicata. Dentre eles os dois volumes do "Anedotário da Rua da Praia", do Renato Maciel de Sá Junior. Também ganhei do Carlos Gerbase, mais um dos sócios, um DVD com clipes e gravações ao vivo dos Replicantes. Só pra concluir esta longa introdução, ainda chegou até mim o DVD "Porto Alegre, Meu Canto no Mundo", um filme de Cícero Aragon e Jaime Lerner.
Nasci em Porto Alegre, no hospital Beneficência Portuguesa, centro da cidade. Alguns anos depois nossa família mudou-se para Arroio do Meio, terra da família do meu pai onde curti uma infância tão boa e marcante que, independente de onde a vida me levasse, era sempre para onde eu quis voltar. Mas Porto Alegre, sei lá, me chama.
Nos períodos em que morei em São Paulo eu lembro nitidamente da emoção que sentia quando via o delta do Jacuí e, em seguida, a ponte do Guaíba da janela do avião. "Da janela do avião eu vejo Porto Alegre / Vejo o futuro em flashback", traduziu bem o Humberto Gessinger em "Por Acaso". Acabou que, entre tantas idas e vindas, consegui voltar para Arroio do Meio em 1997. Por conveniências profissionais mudamo-nos para Lajeado onde também moram meus pais, minha avó materna, meu irmão, primos, tios. Arroio do Meio, especialmente a casa da Tia Dione, ainda é a base dos encontros familiares.
Minhas duas filhas mais velhas moram em Porto Alegre. A Natália cursa Medicina na Fundação e a Aline Relações Internacionais na ESPM. A Ana Luiza termina o ensino médio em 2010 e, antes de entrar na faculdade, está preparando-se para um ano de intercâmbio no exterior. Uma boa parte dos trabalhos da BrodTec exigem deslocamento aéreo e, assim, nas idas e vindas entre Lajeado e o aeroporto Salgado Filho, acabamos passando, eu e a minha sócia Joice, um bom tempo em Porto Alegre (e também Canoas, no albergue da Nine!).
Estas duas últimas semanas fiquei em Porto Alegre, lendo os livros do Renato, assistindo ao DVD dos Replicantes, trabalhando dentro da Casa de Cinema. Também chegou um outro DVD que o Kledir Ramil enviou-me, com o workshop Letra & Música que ele ministra, junto com o Kleiton, em várias universidades brasileiras. Vale muito a pena conhecer também o trabalho que eles fizeram no espaço Criança Esperança. O Kleiton foi meu professor de violão e, obviamente, "Deu pra ti" foi uma das músicas que aprendi a tocar. O filme "Porto Alegre, Meu Canto no Mundo" tem umas cenas em preto e branco, do início do século XX, que mostram uma Porto Alegre que não vivi e da qual, ainda assim, tenho saudade. Assisti a essas cenas do arco da velha em meu notebook rodando o Linux Mint Helena. Parece paradoxo juntar assim a modernidade com a velharia. Por outro lado, o punk dos Replicantes, em algumas gravações com mais de 20 anos, é de uma novidade que não se acaba.
A coleção de parágrafos deste artigo, eu sei, assemelha-se a uma colcha de retalhos -- ou a um patchwork, pra ser moderno. Minha cabeça está assim. O fato é que depois de tanto tempo fugindo de metrópoles, querendo voltar (e conseguindo!) ao meu cantinho preferido do mundo, sinto-me novamente seduzido pela cidade em que nasci. Ela fica me chamando de formas ora sutis, como no poema "O Mapa" do Mário Quintana, e em outras explícitas, como no punk dos Replicantes. Ainda não sei se atendo ou não a este chamado.
Abraços para Luli, Gerbase, Ana, Giba, Nora, Jorge, Kleiton e Kledir.
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Opinião dos Leitores
10 Dez 2009, 11:24
Ontem quando vínhamos de Lajeado à Porto Alegre ouvindo a Ipanema, volta e meia ouvíamos o hit do momento aqui, ou a piada interna local: "chama que ele vem". Acho que é assim que Porto Alegre costuma brincar com você. Ela te chama, e você vem, feito adolescente apaixonado.
Nunca entendi bem esta tua fixação com o sul. Especialmente Arroio do Meio e Porto Alegre. Ou entendo, mas acho distante para mim, paulista, achar que alguém ame tanto sua terra a ponto de se sentir estrangeiro em outras paradas. E ainda, por ser paulista e sentir que lá tudo é tão amplo e impessoal, me apego às pessoas. Essas eu posso levar comigo...
E acabo entendendo que, em mim também, a tua Porto Alegre causa fascínio. Então, ficamos ambos dentro deste paradoxo, e mais uma vez, sem saber se vamos ou se ficamos. Mas o importante é que as pessoas continuam juntas qualquer que seja o lugar.
Beijos!
09 Dez 2009, 11:14
Porto Alegre sempre me chama, daqui a duas semanas estarei lá de novo. Mas olha, apenas sou naturalizado Porto Alegrense e gremista e por consequencia gaúcho.
Nasci em Benguela, Angola o primeiro contato que tive com Porto Alegre foi no dia 30/10/1976, uma tarde muito quente de um sábado de feriadão de finados. A primeir aimpressão que tive foi´péssima, a avenida Farrapos, cá para nós só é bela e acolhedora para que chega a Porto Alegre louco de saudades, o que não era o meu caso naquela primeira vez. Agora cada vez que chego, continuo achando a Farrapos, suja, feia mas não sei qual a mágica que faz com dentro de mim a sinta a minha casa no Brasil. Foi do lado dela, na Roosevelt e na rua dos Gondoleiros, sentindo aquele bafo infernal no calor e aquele barulho infernal que morei nos meus poucos 4 anos em Porto Alegre. Hoje moro há 29 anos em Curitiba, mas diga para todos, não tenho dupla nacionalidade, nem sou anturalizado brasileiro mas sou naturalizado gaúcho, gremista e porto alegrense!! E sabes o que significa assumir isso em terras "estrangeiras"!!!


