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Liberdade

Livre é o estado daquele que tem liberdade. Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda.

Data de Publicação: 10 de Janeiro de 2008

Este é o final da narração feita pelo ator Paulo José no curta-metragem Ilha das Flores, dirigido por Jorge Furtado, um dos sócios da Casa de Cinema de Porto Alegre. A primeira sentença é a definição de um dicionário. A segunda é de autoria da poetisa Cecília Meireles.

Se não há quem explique a liberdade, mas também não há quem não entenda, imagina a dificuldade de escrever racionalmente sobre este tema que cabe tão bem à poesia. E definir isto em um texto de base legal, em uma licença de software? O pior é que este é um assunto pelo qual uma boa parte das pessoas perdeu o interesse ou a paciência. Marco Peereboom, conhecido desenvolvedor do OpenBSD sintetizou muito bem seu sentimento sobre isso em um dos muitos emails que circularam a partir da discussão iniciada por Richard Stallman na lista OpenBSD-misc. Stallman, nessa lista sobre OpenBSD, disse que não recomenda o OpenBSD e complementa apontando links para a sua linha de pensamento expressa em vários artigos. A resposta de Peereboom para Stallman é um bocejo: *yawn*.

Defendi muito a GPL em sua versão 2. Durante minha passagem pela Univates e pela Solis defini, não sem antes argumentar muito, que a licença de todos os produtos de software que desenvolvíamos estariam sob a GPL. Posteriormente, adotamos a versão da licença traduzida pela Creative Commons. Quando a própria Free Software Foundation decretou que as licenças da Creative Commons não eram compatíveis com a GPL e as discussões sobre a versão 3 da GPL se intensificaram, o que eu passei a sentir quando tentava explicar tudo isto àqueles que me vinham perguntar sobre o assunto era a sensação de bocejo, tanto de meu interlocutor quanto minha. A tediosa explicação do que deveria ser uma garantia de liberdade virou um porre. Passei até a evitar o assunto.

O que me motiva a voltar de novo a ele é uma constatação bem prática. Estou observando um crescimento no uso do OpenBSD e do FreeBSD entre meus parceiros de negócios. O Marcelo Barbosa, da SizeOf disse-me que usa exclusivamente softwares que tenham licenças do tipo BSD, para não ter que perder tempo explicando a seus clientes sobre a GPL e sua evolução e para permitir a eles a decisão sobre a forma como distribuirão, ou não, modificações efetuadas nesses softwares.

Ainda em 1999, Rasmus Lerdorf, criador do PHP, havia me dito que optara por uma licença "estilo apache" para não forçar os usuários de sua linguagem a oferecer modificações e aprimoramentos na forma de código aberto. Tanto a evolução do apache quanto do PHP parecem mostrar que a escolha da licença foi bastante sábia.

Toda esta conversa é sonolenta mesmo, estamos cansados de ouvir explicações sobre algo tão inexplicável e que entendemos tão bem, individual e coletivamente. Mais cansados ainda de ouvir os que se proclamam os únicos donos da liberdade e os únicos capazes de defini-la. Tenho a esperança de que esta liberdade inexplicada e entendida seja algo tão inerente para todos que, em breve, nenhuma licença, outra que um cordial pedido e uma cordial resposta, será necessária.

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Opinião dos Leitores

Silvio Palmieri
10 Jan 2008, 13:58
Ótimo texto amigo, e concordo em gênero número e grau com suas colocações.
Aleximandro
10 Jan 2008, 09:48
No final a velha briga de sempre, cada um com seu cada um e brigando pela mesma coisa. Mas sempre alguem quer mais brasa na sua sardinha.

No final acaba endo um tiro no pé e um banho de água fria.

O perda de tempo, creio que tanta briga seja por motivo ideológico e nao por razões ao senso comum.

Existe uma falta de respeito em geral ao pensamento e aescolha do desenvolvedor, contudo cada vez mais complicado de ter que explicar para um terceiro o que vai ser a licença, isto acaba criando muitas vezes barreiras e impedimentos.

Como dirita na citação acima, melhor *yeah*.

Constatação:
Em empresas que passeis e parceiros de negócio, atualmente o o BSD like está sendo melhor visto.
Frederico F. Siena
10 Jan 2008, 09:12
Mais uma vez uma sábia visão.

Parabéns, você conseguiu sintetizar muito bem o que eu também sinto(e creio a maioria também).
Infelizmente a interpretação do sentimento de liberdade é algo muito pessoal e passível de dubiedade.

Comercialmente tentar explicar os princípios do software livre é muito difícil (embora para nós seja muito claro), e infelizmente a idéia sempre vai ser "cerveja de graça".

Imagine então tentar explicar isto para uma platéia de alunos doutrinados em uma cultura de software proprietário, onde a visão de disseminação de softwares sem licença é algo comum.

Nada contra, cada um, cada um, mas é como tentar explicar a beleza e a riqueza de detalhes da música erudita para um rapper ou funkeiro, o que eles querem é na verdade vender discos. Cantar ou tocar com alma; o que que é isso?

Mais uma vez, parabéns pelo artigo
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Sobre o autor

O consultor de tecnologia Cesar Brod publica em seu "Diário de Bordo" do portal www.brod.com.br uma série de artigos que, como ele diz são "registros de participações em eventos, textos, coisas sérias e não tão sérias". Os artigos expressam especialmente sua visão bastante atual do mercado de informática, o papel do software livre e seu modelo de negócio e mesmo o posicionamento recente de grandes empresas como a Microsoft.


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