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Contos da época do computador a lenha - parte 1

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 11 de Julho de 2007

Concluí meu curso técnico em eletrônica em 1982, com um megalomaníaco projeto de um medidor ultrasônico de distância, velocidade e aceleração. Na época, eu já trabalhava na NCR, como técnico de caixas registradoras eletrônicas. Alguns meses depois, graças a atenção que acabei chamando de um pessoal que havia sido contratado para trabalhar com os novos processadores de comunicação da empresa, especialmente por causa do meu razoável inglês e possivelmente também pelo tal projeto megalomaníaco, acabei indo trabalhar com eles.

Mas voltando ao projeto... Nossa turma era aquele bando de CDFs do Colégio Lavoisier, nosso querido Lavô. Eu (vulgo Pinduca), o Dunga, o Geisel e o Juari. Deixo apenas os apelidos! Caso eles queiram se entregar, que se manifestem! Tivemos a grande idéia de criar um programinha que mandava uma seqüência de pulsos, na freqüência de 40KHz, a um transdutor de ultrasom ligado na saída serial de um processador 4004 (se não me engano, usamos o 4048, que já tinha uma memória embutida). Na entrada serial, um outro transdutor recebia o pulso e com um cálculo simples do tempo de envio e retorno do trem de pulsos, teríamos a distância para nosso alvo. Lindo! Mas aí começamos a aloprar... E se derivássemos a distância para termos a velocidade? A velocidade para termos a aceleração? E se usássemos o mesmo transdutor para enviar e receber os pulsos? A NCR, que tinha um laboratório muito bem aparelhado, ajudou muito, permitindo que usássemos seus osciloscópios, ferros de solda e o tanque de ácido para "queimar" nossa placa de circuito impresso de dupla face. A cada teste em nossa "montagem aranha" ficávamos mais felizes, até chegar a hora de colocar tudo para funcionar em conjunto.

A placa de circuito impresso não funcionou e, pior que isto, queimou o processador. Partimos para uma montagem em uma "placa padrão", mas a quantidade de fios e questões de interferência prejudicaram muito não só a eficiência, mas a estética do projeto (que também estava sendo avaliada). A parte fácil, que era o programa, esbarrou em um aspecto simples que deixamos de prever por pura inexperiência: o processador não tinha tempo para calcular a variação da distância para chegar à velocidade e muito menos a aceleração. Adequamos daqui, dali, nosso "trem de pulsos" foi virando apenas uma dezena deles, chegamos a todos os limites práticos possíveis. Faltava muito pouco para dar certo, ao menos esta era a nossa impressão. Aí alguém teve a grande idéia de "acelerar" o chip. Se já havíamos queimado um, imagina o "overclock" de um processador em cima de uma montagem que já mais parecia uma torradeira psicodélica. Queimamos o segundo processador e ninguém mais tinha dinheiro para comprar outro. Isto sem contar que não havia tempo hábil para mais nada.

Em resumo, nosso medidor de distância, velocidade e aceleração virou uma caixinha de música digital programável, aproveitando os componentes que ainda não haviam queimado e uma EEProm que a NCR nos deu de presente no último minuto. Eu não lembro se eu implorei por ela ou não, mas provavelmente sim! Tiramos uma nota medíocre no projeto, apenas o suficiente para concluirmos o curso, e um sermão do professor que, de fato, desde o começo havia nos dito que o projeto era pretensioso demais para o tempo e recursos que tínhamos.

Pouco tempo depois, tive a oportunidade de trabalhar com um engenheiro da empresa (só lembro o sobrenome dele agora: Jung), que criou um projeto que modificava o comportamento dos teclados de uma máquina registradora programável para a Sears. Era uma determinada operação de vendas para a qual o vendedor deveria apertar uma seqüência de teclas, que, com o projeto, passou a ser automatizada. O projeto era extremamente mais simples que o nosso, tecnicamente, mas de uma responsabilidade muito maior. Acompanhei desde o primeiro projeto, a montagem em placas para protótipos, a criação das primeiras placas de circuito impresso, os testes em campo, um monte de procedimentos extremamente metódicos e mesmo burocráticos, que aprendi a valorizar muito!

Não fosse a sorte de eu poder ter vivenciado um projeto muito bem intencionado, mas muito mal planejado e executado, e logo em seguida ter participado de outro que foi feito exatamente como deveria ser feito, talvez eu não tivesse aprendido tanto e nem dado tanto valor a este aprendizado.

Um grande abraço a turma do Lavoisier, aproveitando para perguntar: Engenheiro Papoulinha, por onde andas? Abraço também ao Rocco, Prata e Oliveira!

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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