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Ambientes Virtuais de Aprendizagem

Por Cesar Brod [http://www.brod.com.br]

Data de Publicação: 29 de Maio de 2007

Desde 1988, afortunadamente, tenho computadores em casa. Mais ou menos por esta época, tornei-me, também, associado do BBS Canal Vip. Para quem não é da época da Internet à lenha, informo que um BBS, ou Bulletin Board System, era um sistema que permitia o acesso de computadores, tipicamente através de linha discada, a serviços de correio eletrônico, grupos de discussão e outros. Se não me engano, foi a partir de 1991 que o Canal Vip passou a ter uma conexão à Internet, e aí já podíamos trocar mensagens com um grupo bem maior de pessoas, além de acessar serviços como o Usenet Oracle.

O Canal Vip tinha uma série de grupos de interesse, cobrindo assuntos que iam desde a utilização de um determinado software até dicas e comentários sobre cinema. Enfim, as pessoas já reuniam idéias e aprendiam em conjunto com o auxílio de ferramentas tecnológicas. Neste sentido, talvez os grupos Usenet tenham sido precursores de ambientes virtuais de aprendizagem na Internet. O fato é que, dada a devida ferramenta, as pessoas tendem a organizar-se em seu entorno e criar naturalmente ambientes onde poderão interagir e, em muitos casos, aprender umas com as outras. Ainda no Canal Vip, por exemplo, discutíamos a possibilidade de equilibrar um ovo em pé! Mesmo não sendo o mais nobre dos assuntos, havendo interesse, as pessoas parecem naturalmente tender a discutir e buscar novas informações.

Um outro exemplo interessante, que encontrei há algum tempo, foi a comunidade no Orkut onde quase 30 mil pessoas discutem as técnicas de motivação e pensamento positivo pregadas no livro e no filme The Secret (O Segredo). Esta comunidade serve não apenas para enaltecer as qualidades da "Lei da Atração" e para reunir depoimentos e dicas daqueles que, com ela, conseguiram melhorar suas vidas. Mas ela também permite que os céticos e contrários às idéias do filme expressem sua desconfiança e mesmo total descrença. É indiscutível, porém, que a comunidade no Orkut serve como companhia e material adicional ao que está exposto no livro e no filme, permitindo que os interessados aprofundem-se no assunto.

Em 2002 escrevi um projeto para a criação de um ambiente virtual de aprendizagem que visava, dentre outras coisas, facilitar a "transformação" do conhecimento de um educador em "objetos de aprendizagem" de maneira semi-automatizada, usando uma coleção de padrões existentes na época. Hoje eu escreveria este projeto de maneira completamente diferente. Quem quer aprender, verdadeiramente, sobre qualquer coisa, irá buscar os devidos meios para esta aprendizagem. Cabe ao educador, independente das ferramentas a serem utilizadas, servir como um guia, motivador e animador de grupos de estudo. Nenhuma novidade até aí. O que me preocupa, porém, é ver uma certa tendência à censura de determinadas ferramentas em muitas instituições de ensino.

Já ouvi, muitas vezes, comentários de que o espaço entre as gerações de professores e alunos faz com que a intimidade com novas tecnologias seja muito diferente. Bons professores costumam saber aprender com os alunos as novidades tecnológicas e, com sua experiência didática, fazer bom uso delas. Agora, com desculpas que vão do "excesso de tráfego" à "distrações à concentração dos alunos", ferramentas como o Orkut, MSN e outras são banidas do ambiente escolar e universitário. O fato é que os alunos continuarão a usá-las de maneira alternativa, fora do ambiente escolar. Os educadores perdem, assim, uma maneira de avaliar o comportamento de seus educandos no uso de mecanismos de interação social que poderiam, muito bem, enriquecer a experiência de aprendizagem em ambientes virtuais, estendendo os limites da instituição de ensino para qualquer lugar onde o aluno esteja.

Enquanto isto, as mesmas instituições procuram investir em "aulas virtuais" em ambientes diferentes daqueles aos quais os alunos já estão acostumados na sua lida com computadores e a Internet. Ambientes que muitas vezes estão defasados em termos tecnológicos e visuais, tornando-se maçantes para a geração acostumada ao Youtube, outro dos sites que costuma ser "bloqueado" em muitas escolas e universidades. Será que não é a hora de, ao invés de seguirmos avaliando novos ambientes virtuais de aprendizagem, constatarmos que este ambiente já existe, as pessoas já o utilizam, e só temos que descobrir como melhor potencializá-lo para o ensino acadêmico formal?

Grande abraço ao Paulo Cesar Breim, inteligência à frente do seu tempo que criou o Sampinha e o Canal Vip!

Sobre o autor

Cesar Brod é empresário e consultor nos temas de inovação tecnológica, tecnologias livres, dados abertos e empreendedorismo. Sua empresa, a BrodTec, faz também trabalhos tradução e produção de conteúdo em inglês e português. Além de sua coluna, Cesar também contribui com dicas para o Dicas-L e mantém um blog com aleatoriedades e ousadias literárias. Você pode entrar em contato com ele através do formulário na página da BrodTec, onde você pode saber mais sobre os projetos da empresa.

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