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Código Aberto para a Área Financeira

Por Cesar Brod

Data de Publicação: 04 de Abril de 2007

Antes de voltar para o sul e começar meu projeto de consultoria na Univates, que desencadeou na criação da Solis e permitiu-me uma série de outras atividades profissionais, quase sempre trabalhei em empresas que forneciam tecnologia para a área financeira: Bancos e Bolsas de Valores. Já no início dos anos 90 discutíamos modelos de softwares abertos, proprietários e grátis versus softwares fechados, de domínio público e pagos. Não quero, de forma alguma, voltar à este surrado e polêmico tema. O que quero ilustrar com isto é que, na época, já existia uma cultura de fornecimento de soluções para a área financeira onde o software e os serviços eram pagos, mas os clientes tinham acesso, garantido por contrato, ao código-fonte de uma parte significativa dos sistemas desenvolvidos pelas empresas nas quais trabalhei. Isto é uma questão primordial de auditabilidade e segurança. Instituições que trabalham com dinheiro têm que, obrigatoriamente, saber de que maneira seus sistemas trabalham. Assim, era de certa forma comum que uma solução desenvolvida para um determinado banco acabasse sendo incorporada aos sistemas que fornecíamos, beneficiando os demais clientes. Mesmo entre os grupos de analistas de instituições distintas já era comum a troca de informações. A Tandem, hoje a divisão de sistemas NonStop da HP, incentivou um grupo de usuários bastante ativo até hoje, o ITUG. A ITUG Tape, uma fita com softwares desenvolvidos pelo grupo de usuários, era ansiosamente esperada a cada reunião anual e a venda da mesma era uma forma de dar suporte financeiro ao grupo. Em tempos de Internet, a ITUG Tape transformou-se na [ITUGLib https://www.itug.org/secure/ituglib/user/index.cfm?]. Grupos de usuários que trocam livremente informações e código não são algo novo. Antes, porém, os mesmos eram mais restritos a determinados produtos ou áreas de atuação. Hoje já existe uma tendência natural a uma abertura maior, graças à ampliação do alcance das redes de comunicação e a constantes esforços de padronização da infra-estrutura tecnológica. Se, no passado, uma aplicação desenvolvida para um banco não interessava a uma empresa de telecomunicações, hoje muitos elementos estruturais básicos prestam-se a todos os tipos de negócios.

Quem toma decisões sobre investimentos em uma instituição financeira busca, dentre vários aspectos, analisar uma solução com base no trinômio inovação tecnológica, segurança e economia.

É fato que as instituições financeiras são o motor de inovações, ao mesmo tempo em que são conservadoras. Inovam mas não são cobaias. Quando o são, é dentro de um ambiente muito controlado e gerenciado diretamente pela sua equipe interna de TI. Bancos, seguradoras e bolsas de valores, ao terem como material de trabalho o dinheiro, conseguem avaliar muito bem o quanto os investimentos em TI trazem de retorno, e com que velocidade.

A oferta de soluções abertas para o processamento online de transações (como o jPOS, por exemplo) oferece para os bancos o melhor de vários mundos:

  1. A economia de um modelo de negócios não diretamente associado à licenças ou taxas de uso por volume (CIOs e CFOs são bastante sensíveis a isto, pois muitos softwares para bancos possuem seu preço atrelado ao volume de transações);

  2. A disponibilidade de softwares prontos e outros que podem servir de matéria para a construção de novos, com ferramentas de desenvolvimento muitas vezes idênticas ou similares às que os desenvolvedores já utilizam, preservando seus investimentos ao aproveitar seu pessoal interno e garantir um ciclo rápido de capacitação;

  3. A auditabilidade levada ao limite, permitindo que qualquer programa possa ter seu código fonte exposto à peritos.

É muito interessante observar que instituições financeiras como o Deutsche Bank, Credit Suisse e HSBC têm hoje o suporte da Microsoft para seus ambientes SuSE Linux. Outras instituições possuem o suporte da IBM ao Linux em seus mainframes, mostrando que estamos falando de modelos já plenamente suportados por grandes empresas.

O modelo colaborativo é fantástico e socialmente correto, mas jamais teria dado certo se o resultado não fosse produtos de excelente qualidade. O que está sendo melhor desenvolvido agora é um modelo de suporte efetivo para usuários corporativos: é o modelo "da moda", já tradicional no mercado open source (ainda que com outros nomes), que é a arquitetura baseada em serviços e a venda de serviços profissionais e não o "aluguel" de software.

Nenhuma grande empresa quer dar-se ao luxo de ficar presa a uma tecnologia específica. Desta forma, o software aberto deve crescer cada vez mais, tornando-se matéria-prima de fornecedores de soluções muito focados no sucesso dos negócios de seus clientes. Todos irão fugir, cada vez mais, de soluções que causam o lock-in tecnológico (como o Oracle Designer, junto a Base de dados Oracle, com o Linux da Oracle). É bom mencionar que a mescla de soluções interoperáveis que acontece hoje tende a se intensificar cada vez mais. Windows rodando MySQL, Apache, PHP. Linux com Grasshopper rodando soluções desenvolvidas com o Visual Studio. E, com isto, a intensificação também da abertura de códigos por empresas tradicionais de software proprietário.

Os bancos entendem que a matéria-prima de seu negócio é o dinheiro e seu poder de competição está no excelente relacionamento com seus clientes. A área de TI é instrumental para isto, não mais o diferencial competitivo. A partir do momento em que os próprios bancos começam a criar consórcios de TI, juntando-se a seus concorrentes, eles podem incentivar (e mesmo financiar) o desenvolvimento de software aberto que todos irão utilizar. Este financiamento pode representar menos do que os bancos hoje investem em tecnologia, e a velocidade dos resultados certamente será maior.

Um agradecimento especial ao Rodolfo Gobbi, da 4Linux, que mesmo antes de saber que eu estava rascunhando este texto enviou-me um e-Mail com considerações e perguntas sobre o assunto. Este papo com o Rodolfo acabou por levar-me a concluir as idéias que levaram ao fechamento deste artigo. Rodolfo, podes assinar como co-autor aí embaixo! ;)

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Opinião dos Leitores

nobody
07 Abr 2007, 09:17
Brod faz boas pesquisas no Google e os compila razoavelmente.
Wagner Marini de Oliveira
05 Abr 2007, 01:05
Eu gostaria de publicamente parabenizar o Cesar devido a um detalhe importante em seu artigo.

Antes dele apresentar o conceito definido no título desta materia, ele inicialmente mostrou um conceito anteriormente empregado na indústria, sendo feliz e exato no exemplo apresentado. A TANDEM, hoje a divisão da HP conhecida como NED (NonStop Enterprise Division) e seus usuários, representados pelo ITUG, como poucos sabem, não foram os pioneiros neste modelo de compartilhamento de informações e idéias citado no artigo, mas foram um das primeiros a aplica-lo. Existem outros méritos que a TANDEM possui que eu levaria uma centena de linhas para relatar, sendo o mais conhecido o conceito de aplicação "requester/server" que deu origem ao conceito mais amplo de aplicação "client/server".

Parabéns Cesar Brod!
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Sobre o autor

O consultor de tecnologia Cesar Brod publica em seu "Diário de Bordo" do portal www.brod.com.br uma série de artigos que, como ele diz são "registros de participações em eventos, textos, coisas sérias e não tão sérias". Os artigos expressam especialmente sua visão bastante atual do mercado de informática, o papel do software livre e seu modelo de negócio e mesmo o posicionamento recente de grandes empresas como a Microsoft.


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